O Cerco de Forli está montado | Jogos de Poder
Sábado, 5 de março de 2016

O Cerco de Forli está montado | Jogos de Poder

A República e seus escândalos remontam um passado já conhecido da nossa história. Na verdade perpetua-se o mesmo formato de jogo, onde figuravam a príncipes, rainhas, suas paixões e vaidades. A disputa pelo pelo poder trocou apenas de figurino, pois o enredo ainda é o mesmo e assim se operam os Jogos de Poder.

Um escândalo tomou a corte e a boataria percorre os corredores de todos os castelos da região, estes rumores dominaram todo o reino, e vários principados se aproveitaram da fraqueza exposta para retirar a rainha do trono. Da nobreza à plebe, o reino estava pegando fogo por dentro, prestes a ser implodido pelas panelas ensurdecedoras que tocavam contra a rainha. Ameaças de golpes eram alardeados a todo momento, partidos rivais circundavam o palácio, apresentavam seus canhões e atiravam em qualquer um que vestisse as cores vermelhas do brasão da família real.

O golpe central deste cenário veio do seio do convívio social da rainha, o último movimento foi feito pela mão-da-rainha, que ainda coordenava todo aparato de justiça. Enquanto Ministro da Justiça, sempre evitou ser controlado pelo antigo Rei durante o seu mandato e deixou o seu exército de homens livres para investigar, pilhar e chafurdar do clero à nobreza.

Esta liberdade de autonomia da justiça, na visão da república, trata-se de um princípio fundamental para o espírito democrático da nação. A polícia e a justiça real investigaram homens e mais homens, e é claro, por óbvio a nobreza tem teto de vidro.

A sujeira encontrada era tanta que não se sabia onde começavam e terminavam os rastros, do público ao privado boatos e verdades se confundiam. Esta liberdade investigativa permitiu que todos os feudos inimigos tivessem um informante que controlasse parte do futuro destas investigações, sendo que o objetivo final tinha traços de justiça, mas parecia muito mais com a velha política. Portanto, cada movimento poderia ser mais um passo, ou para a manutenção e legalidade do reino, ou para a dominação estrangeira. Já não se sabia mais.

Tendo a polícia real descoberto indícios de irregularidades no reino, todas as cabeças começaram a ser desencapuzadas, prontas para serem decapitadas a nu. Sucumbiam altos ministros e as grandes e intocáveis corporações, fornecedores da subsistência do reino. Como um prenúncio equivocado do que seria a Queda da Bastilha, sob aplausos da plebe e da nobreza, o circo estava armado. O senso de justiça e o processo legal foi levado à praça pública. Todos os investigados se tornaram objeto de escárnio público, amarrados e levados expostos nas carroças oficiais, por ordem da Justiça, para que todos pudessem vê-los e reconhecê-los.

O próximo passo seria a oitiva destes nobres possíveis infratores, conduzidos coercitivamente, prontos para o calabouço moderno de tortura.

As prisões eram ordenadas cautelarmente pelo afamado juiz que, como homem de bem, visava encontrar Aletheia, a "verdade real". A metodologia de obtenção de prova era simples, cansar o investigado, amedrontá-lo e extrair a verdade por meio de uma delação premiada, a versão burocrática e pós-moderna de tortura. Dividir e conquistá-los e buscando sempre a legitimidade do povo. O juiz sabia muito bem como conduzir a justiça contra os políticos, com mais política.

O Ministro da Justiça, assim como sua rainha, já não tinha mais controle, o cerco apertava de fora do castelo e as pressões internas estrangulavam suas veias. Este homem estava acuado, como protetor da rainha precisou se sacrificar, mas não sem ao menos desferir um golpe certeiro. Para atingir seu inimigo intracorporis, diz-se as más línguas que ele teria facilitado para sua amante uma cópia da versão colhida de um delatado que estava no calabouço das delações.

A notícia foi escrita, e as linhas apresentavam versos que almejavam denunciar uma trama arquitetada pelo antigo rei e sua atual rainha. Antes publicação dos jornais quanto a delação contra o antigo rei, o Ministro recuou, saiu da linha de tiro, renunciou ao cargo e facilitou a um colega, de forma a dar mais legitimidade para a operação.

Um pouco antes da notícia correr o reino, a jornalista próxima, muito próxima, do ministro arquitetou com as gazetas para que entregassem a notícia somente quando ele já não estivesse mais no cargo. Agora ele iria cuidar apenas de burocracias e a defesa legal do reinado.

Os jornais circularam, o espanto foi tanto que nem deu tempo dos opositores do reinado celebrarem. O antigo rei estava exposto, não com provas, ainda, mas andava nu sob o holofote da mídia. Foi assim que o colocaram em uma carruagem de ouro, como se coloca um premio de guerra. Os jornalistas estavam prontos para registrar o momento que seria a imagem mais utilizada pelos inimigos do reino em toda posteridade.

O jogo foi tramado em meio a traições, seduções e muito espetáculo público. O capítulo se encerra com os canhões dos opositores do reino voltados à porta principal do castelo real. A rainha talvez não consiga proteger o seu reinado, ela não estocou comida, não preparou o exército e ainda trata seus inimigos como animais de estimação. Possivelmente o antigo rei já prepara a sua guerra fria contra o reinado da rainha. O ataque ao Cerco de Forli está montado, procura-se amigos, dentro e fora do reino. Não restaram muitos amigos da corte, pois pelo que parece esqueceu-se de cultivá-los. Caterina Sforza está contra a parede, e uma nova Santa Liga já espera um novo "aplaudaço" no próximo Jornal Nacional.

André Zanardo é Advogado, Diretor Executivo no Justificando e filho bastardo do Príncipe.
Sábado, 5 de março de 2016
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