Lula, Marina Silva, ou Moro em 2018? | Jogos de Poder
Segunda-feira, 11 de abril de 2016

Lula, Marina Silva, ou Moro em 2018? | Jogos de Poder

Acessibilidade: Vídeo transcrito abaixo para deficientes auditivos.

Essas semanas foram emocionantes na política. Provavelmente, se você clicou neste vídeo, já viu tanta coisa acontecer que também não deve duvidar de um algum destes cenários para as próximas eleições. Lula, Marina Silva, ou Moro: quem deve protagonizar as eleições de 2018? Hoje quero contar um pouco do momento de transição que o Brasil está vivendo. O Mundo está mudando e ele só está mudando porque você está mudando a sua forma de se conectar com as pessoas. Você está de saco cheio de ser representado pelos mesmos políticos, eu entendo. E eu vou te contar o porquê.

Para chegar no cenário atual, é preciso lembrar que você não se comporta como os seus avós e a tecnologia está mudando a forma que você se relaciona com a política. Antes, a política era feita de forma analógica, conversávamos somente com um pequeno grupo restrito de pessoas, como nossos familiares e amigos mais próximos. A política acontecia nas praças públicas e locais em que as pessoas poderiam se socializar e reclamar sobre as coisa públicas da vida. Seu mundo era restrito. A informação que chegava para as pessoas era completamente analógica: você assinava um jornal com todas as supostas verdades da vida e na sua televisão só tinham 5 canais. A informação chegava até você de forma unilateral, sem que você pudesse se expressar e interagir. Naquela época você era um cara completamente manipulável. Isso não mudou muito, mas vamos lá.

Transformação política: do analógico para o digital

O seu modo de vida possibilita que, com dois cliques, você escolha o que você quer assistir, escutar, e ler. Isto tudo mudou a sua forma de pensar e está te tornando uma pessoa mais ansiosa, imediatista e por vezes simplista. A política tem um tempo para ser escrita e você está tentando acelerá-la, pois cansou deste formato analógico. Você quer uma política 2.0, eleger e jogar fora com mais dois cliques e um enter.

Transformar a política analógica em uma política digital não é tão simples de se fazer sem que você jogue vários princípios democráticos fora. O caminho será longo até uma transformação completa e saudável. Mas, antes, é preciso entender porque esta ira está consumindo a população.

Em 2011, eclodiu no hemisfério oriental a chamada primavera árabe. Com a abertura das comunicações de redes sociais, jovens utilizaram da tecnologia para se juntar e fazer a "revolução".  A onde de protestos e revoltas provocou a queda de quatro governantes na região e trouxe um sopro de democracia para a Tunísia, por exemplo. Já no Egito, os militares tomaram o poder.

Ainda em 2011, inspirados pela primavera árabe, jovens no mundo inteiro saíram às ruas, ocuparam e enfrentaram a polícia em uma tentativa de criticar o sistema financeiro. Reclamavam por uma democracia mais eficiente e menos excludente, cada um com sua peculiaridade. Assistimos o levante do movimento Occupy Wallstreet nos EUA, o 15 M na Espanha e diversos outros países tiveram seus polos de resistência temporários comunicando que não estavam satisfeitos com o sistema econômico e de representatividade política.

Crise de Representatividade e as Jornadas de Junho

Em 2013, durante as jornadas de Junho, o Brasil experimentou a potência das redes sociais como instrumento de organização popular. O coletivo MPL estava nas ruas de São Paulo com um objetivo claro: a luta pelo transporte público e o não aumento da tarifa. O governo do Estado massacrou as manifestações e instaurou um período de exceção à democracia. Logo as fotos correram as redes sociais e os protestos ganharam força e a mídia. Em certo ponto, a organização espontânea surpreendeu com um novo movimento em que as pessoas vestiam Verde e Amarelo. Uma multidão indignada saiu às ruas para descobrir o motivo de sua indignação; sem pautas claras, descobriram que possuíam pontos em comum e precisavam se organizar. A corrupção, mesmo que de forma abstrata, foi um catalizador deste pensamento. O MPL, coletivo anárquico organizado pela esquerda, já não era mais o foco. O momento foi aproveitado por forças conservadoras e abstratas. Pela primeira vez a direita adquiriu militância nas ruas e ficou enorme.

Nas eleições de 2014, quase todos os políticos tentaram se utilizar do movimento que explodiu nas ruas em 2013: disseram se tratar de uma legião que de forma autônoma demonstrou não querer ser representada. A esquizofrenia tomou conta do país. Como lidar com uma sensação de libertação de ir pras ruas, querer viver desamarrado dos políticos corruptos e ter que votar em um potencial novo corrupto nestas eleições? Do outro lado, a esquerda se sentiu intimidada com a cooptação das jornadas de junho e se sentiu assustada com o crescimento da violência policial somente para o seu lado.

O racha nas eleições e a crise de legitimidade política

A tentativa de digitalizar o processo político foi freado pelo sistema analógico político. As coisas não são tão simples quanto a sua postagem no Facebook. O lema nas eleições de 2014 foi: ninguém pode ficar em cima do muro, ou você é um "coxinha" ou um "petralha". Verde e amarelo versus vermelho. A polaridade nesta relação ficou tão dividida que não importava quem ganhasse, não haveria legitimidade total para se governar.

Para se governar em um Estado Democrático de Direito é preciso que existam dois fatores políticos em seu favor: a legalidade e a legitimidade do seu poder. A legalidade significa ser eleito de forma justa através de um procedimento – eleições, por exemplo. A legitimidade, por sua vez, significa que a maioria das pessoas com poder de exercer uma opinião política tenham votado em você e possam sustentar a legitimidade do seu mandato.

Aqui está o calcanhar de aquiles da nossa crise política: a legitimidade! Muita gente se preocupa somente com a porcentagem de ganho de um político sobre o outro, ou seja, 51,64% para a Dilma e 48,36% para o Aécio. Grande erro! Não se esqueça nunca das abstenções, dos votos nulos e dos votos brancos. Não é porque eles não votaram no seu candidato que não fazem parte do jogo político. Não existe lacuna de poder!

Nas eleições de 2014, 26% dos eleitores somaram os votos neutros, as abstenções, os votos nulos e brancos, sem contar os votos inválidos. É como se um terceiro candidato obtivesse ¼ dos votos!

Isto significa que a legitimidade de governo da presidenta Dilma ficou abaixo dos 50%, com apenas 38% do total de Eleitores. E Aécio atingiu 35,73% deste total. Isto significa CRISE! Não chegamos perto de atingir a legitimidade – e não é o Aécio a salvação. Adicione a esse cenário um congresso conservador que faz oposição à atual presidenta tornando ingovernável o seu mandato e uma pitada de revolta verde e amarela. Está pronto! Chegamos ao ponto de uma eleição que nunca acabou! Estamos ainda buscando legitimidade política para se governar: daí vem o papo de impeachment, parlamentarismo, golpe, etc.

O Impeachment e a antecipação jurídica da corrida eleitoral

Finalmente chegamos em 2016. O país está em convulsão. Passaremos por um processo de impeachment, em que Dilma pode cair ou não. O cenário não é muito positivo para ela. E para que ela não caia será preciso muita militância política. Dilma precisará do apoio de movimentos sociais e da esquerda que ela tanto bateu e jogou contra. O cenário é incerto e dependerá de habilidades políticas de articulação do partido. Mas, diante desta crise de representatividade e legitimidade, podemos prever alguns cenários que podem ser analisados com ou sem a deposição da presidenta.

A polarização PT e PSDB tende a atingir o seu cume em breve para depois perder o seu efeito. A busca desenfreada pela punição de políticos, principalmente daqueles que ocupam cargos no executivo, será satisfeita, mas ainda existirá um vazio de que nada irá mudar. A operação Lava-Jato, que simboliza a ambição máxima pela caça aos corruptos, derrubará diversos políticos e fará do Judiciário um órgão jurídico à serviço da política.

Este cenário jurídico/político antecipará as eleições de 2018 para 2016, no qual os atores políticos serão alvos de ações judiciais que possam impedi-los de concorrer em 2018. Ou seja, a oposição tentará minar as chances de Lula concorrer às eleições já em 2016, transformando-o em ficha suja. Já a situação fará de tudo para conseguir uma condenação de Aécio Neves e tirá-lo das próximas eleições. A briga será travada primeiramente nos tribunais.

Aécio, Lula, Marina Silva ou Moro em 2018?

Aécio não deve ter muita chance neste jogo, já que a sua militância é instável e o seu único compromisso é tirar o PT do poder e lavar o país da corrupção. Qualquer indício de envolvimento de Aécio com corrupção fará com que ele seja massacrado por ditos "petralhas" e "coxinhas". Se isto acontecer, ele será uma carta fora do baralho. Quem passar na linha de tiro será fuzilado em praça pública como traidor.

Do outro lado, se Lula sobreviver à guerra judicial, permanecer ficha limpa e ainda tiver saúde para lutar, ele será a figura representativa que possivelmente concentrará as forças da esquerda. A sua força poderá aumentar se por acaso Dilma for derrubada do poder. Será quase que uma força de vingança política, uma mensagem de RESPEITEM MEU VOTO. Se isto ocorrer, se preparem: a guerra será sangrenta. O Comando Caça aos Corruptos deixará barato.

Falemos do discurso da terceira via, que poderá agradar ambos os lados. Marina Silva tem se demonstrado uma excelente jogadora nos últimos anos. O discurso de Marina pode ser aceito pela Direita e pela Esquerda. Com sua posição mais ao centro, Marina apenas precisaria adaptar levemente o seu discurso para ter maior penetração. Longe de tentar polarizar, mas Marina procura os insatisfeitos. Se ela abarcar no seu pensamento um viés levemente mais progressista e abafar sua imagem evangélica, a esquerda aceitará a sua imagem como bem vinda em tempos de crise. Já a Direita estará desiludida com a limpeza infinita de políticos corruptos e verá Marina como uma alternativa sem passado sujo, com possibilidades reais de se ganhar uma eleição. Cansados de perder ano após ano, poderão votar em peso para que Marina ganhe. Neste momento, como jogadora, Marina Silva se mantém acertadamente quieta sem se expor. Já dizia um provérbio árabe: o silêncio pode ser o mais eloquente dos discursos.

Agora, o cenário pode ficar ainda mais interessante com a chegada de um novo elemento político. Todas as movimentações do Juiz Sérgio Moro denotam a sua habilidade como jogador político. Sua clara interferência mostra que ele tem um lado nesta história: o lado contra corrupção a todo custo. Utilizando-se de subterfúrgios legais, Sérgio Moro tem conduzido todas as investigações sabendo onde quer chegar. Ele é juiz, é promotor e age politicamente como um bom político. Recentemente, suas ações foram questionadas pela suposta ilegalidade de vazamentos, colocando em risco a sua carreira no judiciário, mas mesmo assim podendo despontá-lo como herói na política. Aparentemente para ele os fins justificam os meios, seja como juiz ou como agente do caos.

Com discursos de efeito e superexposição dos investigados na imprensa, ele é o novo Batman do Judiciário. Um cara jovem, símbolo da moralidade, herói da mídia e tem conquistado cada vez mais o povo brasileiro. Imagina quando ele puder fazer discursos abertamente se dizendo o homem que derrubou os maiores políticos do país. Este é o cara que poderá unir a nação como um novo salvador. Afinal, se tem algo que une a esquerda e a direita é a sede por punição. Quem viver verá!

Essa história já foi vista na Itália em 1992, quando Antonio Di Pietro, juiz em uma província Italiana, desencadeou a operação Mãos Limpas. Eram aproximadamente 35 partidos naquela época e todos ruíram, restando somente 4. Tudo isto por causa de ações judiciais contra a corrupção. Adivinha o que aconteceu? Caos na política e o judiciário protagonizou uma completa varredura no sistema. O Juiz do caso Mãos Limpas, que supostamente varreu o país da corrupção, entrou para a política e foi condenado 10 anos depois pelo crime. Neste meio tempo, forças conservadoras tomaram o Poder. Silvio Berlusconi, um Bilionário Neoliberal, dono de canais de TV e Jornais, virou primeiro ministro Italiano. Com um discurso de que rico não precisa roubar, e levantando a pauta anticorrupção, se elegeu como salvador da pátria e incorruptível. Novamente a história se repetiu e anos depois foi condenado por corrupção.

Vale lembrar que, neste cenário de possibilidades das eleições 2018, ainda existe espaço para muitos outros jogadores importantes, como Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin, José Serra e Ciro Gomes. Contudo, isto é assunto para outro Jogos de Poder. Neste episódio, analiso principalmente a crise de representatividade, que é típica dos nossos tempos, e alguns possíveis cenários na atual conjuntura política. Não importa se você é "coxinha", "petralha", ou indiferente às opções postas na mesa, o Brasil está mudando. E tudo isto porque você está mudando a maneira que se relaciona com o mundo da política. As melhores mudanças são precedidas pelo Caos.

André Zanardo é diretor executivo do Justificando, advogado e filho bastardo do príncipe.
Segunda-feira, 11 de abril de 2016
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