A manipulação em 100 capas da VEJA | Jogos de Poder #7
Sexta-feira, 13 de maio de 2016

A manipulação em 100 capas da VEJA | Jogos de Poder #7

Excelentíssimos! Hoje, vou lhes mostrar 100 capas da revista VEJA, de Junho de 2013 até hoje. A semiótica destas capas lhe ajudará a entender um pouco sobre como funciona a manipulação de conteúdos e porque estamos onde estamos neste momento. Veja que não é à toa o porquê da mídia internacional estar criticando tanto o jornalismo brasileiro. Contudo, vamos ser bem objetivos, afinal nada mais clichê do que falar que a mídia manipula. Isto todo mundo sabe, mas o problema é que nem todo mundo vê. O importante é saber na prática.

Antes de começar, ressalto que as informações que eu vou mostrar são só a ponta do iceberg. Comentaremos apenas de passagem, observando a semiótica das capas desta que é a revista mais vendida do Brasil. Trata-se nada mais, nada menos, do que um dos veículos de comunicação que mais pautam o jornalismo do Brasil, junto com a Rede Globo.

Esta revista tem alguns pressupostos observáveis logo de cara:

– O mundo é regido pelo certo e errado; o bom e o mau, nós contra eles, os verdadeiros brasileiros contra os não verdadeiros.

– A corrupção é o maior mal do Brasil, tudo decorre disso e o PT sempre estará envolvido.

– Qualquer dia um herói aparecerá para salvar o Brasil. Precisamos descobrir quem é.

– O sistema de justiça só funciona através da punição. Portanto, para melhorar o mundo, é preciso punir cada vez mais.

– Livre mercado sempre e Estado somente para salvar o mercado.

As táticas mais recorrentes de manipulação

1) Ela sempre será maniqueista e dirá o que é certo e o que é errado. Não abre espaço para reflexão do leitor.

2) A solução é sempre simples e existe um comando de ação imediato para um problema: prender ou eliminar alguém.

3) Os leitores da Veja devem culpar e perseguir aqueles – os brasileiros “desinformados” – que não seguem as diretrizes da revista. O inimigo mora ao lado; vigiai.

4) Problemas que não sejam aqueles vistos pela VEJA são secundários. A agenda de ação deve ser simples e clara. O leitor deve saber exatamente o que fazer depois de terminar de ler uma matéria.

5) O controle dos leitores é feito através de uma narração gradativa. Um inimigo nasce aos poucos, construído como em uma história infantil.

6) Tática da tortura: não deixe o torturado desmaiar ou morrer. Ou seja, sempre mantenha o seu leitor alternando entre o medo e a esperança. Mas, claro, com muito mais medo.

Nesta análise, nós vamos passar por 7 períodos de relevância histórica para a revista que aconteceram entre 2013 e este ano. Vamos passar pelas manifestações, o julgamento do mensalão no STF, Copa do Mundo, Eleições de 2014, Petrobrás, Lava-Jato e Impeachment. Nestes períodos, a VEJA se preocupa em passar mensagens muito claras, nunca levando o leitor a uma reflexão, mas afirmando posições que a coloca como autoridade ideológica, capaz de manipular os rumos do país. Posicionamento que coincide com quase todas as mídias brasileiras.

MENSAGEM  n˚1: O GIGANTE ACORDOU

Durante os protestos de 2013/2014, a Veja tentou a todo momento cooptar o movimento e direcionar seus interesses, para o combate da corrupção. Determinou quem seriam os inimigos, fez o possível para demonizar os Black Blocs para depois “linká-los” com o PT. Tentou, mas não conseguiu – até porque não fazia o menor sentido. Entretanto, perseguiu os manifestantes que não eram verde e amarelo, criando o esteriótipo de que todos esses outros eram vândalos. Sabendo que as manifestações estavam surtindo efeito, se desesperou quando o governo cogitou por um plebiscito para reforma política. O instrumento foi ironizado de tal maneira que muitos duvidaram se tratar de uma capa de uma revista séria.

MENSAGEM n˚2:  O BRASILEIRO ESTÁ DE SACO CHEIO

A crise é de confiança, em tudo e em todos. O leitor imagina: se a maioria dos outros leitores se sentem assim, então está na hora de trocar os agentes políticos do poder. Brasileiros são somente aqueles que a Veja diz ser.

A revista mostra que todos estão pedindo socorro e já passou da hora de terminar com o ciclo populista e corrupto. A conclusão da mensagem? Estamos diante de um cenário totalmente desesperançoso, em que o Estado é o único a devorar as riquezas da nação, não permitindo que o empresário cresça de jeito algum.

MENSAGEM  n˚3: OS INIMIGOS DO PAÍS DA CORRUPÇÃO SÃO LULA, DILMA E O PT

Em quase todas as capas a Veja utiliza recursos semióticos para ligar os padrões e esquemas de corrupção ao PT. Nelas, o esquema é sempre o mesmo: uma foto dos inimigos com uma expressão de “poucos amigos” e um fundo escuro, que dê caráter demoníaco para alguns personagens. Fogo, explosões e raios também são ótimos para expressar algo que está sendo destruído. A ideia de bem e mal é revisitada todas as vezes.

Em outras capas, o inimigo está sozinho – para tentar enfraquecer o poder da oposição. Afinal, poder é, em grande parte, movido pela confiança. Quebrar a aliança de confiança do inimigo com seus “seguidores” já é um grande passo. Por isso todas as delações premiadas são comemoradas e escandalizadas. Quando a revista denuncia o vazamento de algum documento, informação sigilosa ou comunicação entre políticos, as capas procuram sempre mostrar ao leitor que este verá provas e documentos irrefutáveis, no melhor estilo CIA e FBI.

Em outros momentos, quando as capas agressivas já não mais convencem, a comunicação muda para a ridicularização do opositor com toques humorísticos, a fim de ganhar o leitor.

Na média, é um padrão que oscila entre: “veja como somos brasileiros vira-latas, não chegando nem perto dos americanos” para “podemos prosperar e sermos mais ricos se executarmos os comandos dados pela Revista”.

MENSAGEM  n˚4: PRESSÃO NO JUDICIÁRIO E A IDEIA DE PUNIÇÃO

Em diversas capas, a Veja exerce grande pressão sobre as instituições judiciárias, seja elencando heróis, colocando em xeque as decisões dos juízes, ou forçando a ideia de que provas ilegais são legais.

A preocupação é mostrar que a justiça é feita através da punição, e para se punir basta a vontade dos juízes e não necessariamente da lei. O pressuposto é que os juízes devem temer serem criticados pela revista, mas se colaborarem serão heróis nacionais. Estimula-se a sensação eterna de que o Brasil é o país da impunidade.

MENSAGEM  n˚5: HERÓIS DO POVO BRASILEIRO

Tenta-se criar heróis a todo momento. Heróis advindos do Judiciário, populares que tenham afinidade econômica com a revista, representantes políticos com capacidade de enfrentar o PT, ou até mesmo reforçando a ideia de que a população pode assumir o papel heróico e enfrentar seus inimigos.

MENSAGEM  n˚6: LULA NA CADEIA

O líder máximo da oposição da Veja é o Lula. Este é o maior inimigo a ser combatido. Antes das eleições de 2014, a revista ainda mantinha o mínimo de discrição, mas, depois de não conseguir emplacar outro candidato nas urnas, sobe o tom e veste o ex-presidente de presidiário, expondo-o como o “monstro” a ser combatido. A comunicação é tão abusiva que margeia os limites da liberdade jornalística para até possíveis cabimentos jurídicos, civis e criminais.

MENSAGEM  n˚7: IMPEACHMENT DA DILMA É NECESSÁRIO

O possível impeachment da presidente Dilma já vinha sendo ventilado desde 2014, no pós eleições. A Veja jogava lenha na fogueira, para o fogo queimar mais rápido. Em 2015, começa a assumir publicamente a ideia, dando forças para o grande protesto do dia 15 de março. Em setembro, mais feroz, publica uma entrevista com o vice-presidente Michel Temer, o qual questiona a popularidade de Dilma – "com essa popularidade, Dilma cai", disse. Desde então o tema é requentado e reativado de diversas formas, como um mantra. As capas todas as vezes mostram Dilma como uma mulher fraca, sozinha e dependente de Lula. Em contraposição à presidente, nas outras semanas a revista frisava a existência de “personagens de sucesso” homens, que disputavam seu poder, afirmando seu fracasso como maior líder do povo. E é claro que, dentro deste jogo, quanto mais a imagem do Lula era destruída, mais a imagem de Dilma era jogada no poço.

Basicamente, a manipulação da Veja opera através do controle do medo, da utilização das emoções, dos simbolismos, e através de uma comunicação simples, clara e de fácil compreensão para que qualquer um possa entender como deve agir. Não há nada de muito sofisticado nesta metodologia de manipulação, mas ainda funciona para a maioria dos leitores.

Semana que vem tem mais, mas dessa vez eu quero retratar o jogo político através do ponto de vista de apenas um lado do tabuleiro. Peças brancas ou peças pretas? Quem você quer ver no próximo Jogos de Poder? Falarei sobre quais são as possíveis estratégias neste momento político sob a ótica do PMDB, ou poderei falar sobre a ótica do PT. Comente abaixo, não se esqueça de se inscrever no canal do Justificando no Youtube e assine o nosso feed no Facebook.

Ah! E não se esqueça de deixar o seu comentário. PT ou PMDB?

Meu nome é André Zanardo, e me chamam de filho bastardo do príncipe. Nos vemos nos próximos Jogos de Poder.

André Zanardo é diretor executivo do Justificando, jornalista, advogado e filho bastardo do Príncipe.
Sexta-feira, 13 de maio de 2016
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