Somos muitas e somos fortes
Segunda-feira, 16 de maio de 2016

Somos muitas e somos fortes

Por recomendação de uma amiga, assisti o documentário “She is Beautiful, when she is Angry” e, pela primeira vez depois do golpe, eu chorei. Chorei de emoção por perceber que, sim, nós, mulheres, somos a força que muda e impulsiona o mundo. Chorei por perceber que depois de 40 anos, continuamos lutando pelas mesmas causas e que retrocedemos em muitas agendas. Chorei pelo descaso que sempre existiu em relação aos nossos direitos sexuais e reprodutivos e a constante batalha contra o desejo de suprimí-los. Chorei, sobretudo, por achar que não estou honrando a história escrita por aquelas mulheres incríveis que narraram suas lutas e conquistas no documentário.

Daí comecei a fazer uma reflexão de quando eu passei a me identificar com a pauta feminista e fiz um flashback mental. Nasci em uma família privilegiada e, sempre, rodeada de muita informação. Por um lado, acompanhava o trabalho do meu pai enquanto ginecologista e defensor convicto da liberdade e dos direitos das mulheres. Por outro, estava ao lado da minha mãe, sexóloga que ia dar aulas em escolas e em presídios femininos para falar sobre educação sexual. Na minha vida não existia violência ou limitações. Eu era livre!

Mas, quando a adolescência chegou, comecei a perceber e a ficar exposta aos diferentes tipos de violência de gênero. Eu já ia para a escola sozinha; ouvia piadas de baixo calão ou ficava envergonhada com os sons bizarros emitidos pelos homens em pontos de ônibus ou ao atravessar uma rua. Algumas vezes, cheguei a “ficar” com rapazes em festas porque não soube dizer não e achava que, de alguma forma, eu devia sempre dizer sim. Outras vezes, em festas ou carnavais, passei por situações de violência, e sempre algum amigo precisou interferir porque eu estava sendo forçada a beijar algum desconhecido que me segurava à força. Mas, naquela época, ainda jovem, eu não era capaz de entender que isso tem nome e se chama violência. Não percebia que eu estava naquele lugar de subjugação.

Já formada, fiz uma entrevista para uma vaga de advogada de uma grande empresa em Salvador e meu currículo foi recusado na etapa final porque o avaliador entendeu que o meu “sexo” contava pontos contra mim. Daí fui trabalhar em um escritório de advocacia, cujo chefe – um senhor de mais de 70 anos -, avaliava diariamente os meus ternos e a forma que meu quadril ganhava em cada um deles. Pensando bem, custou muito para que eu entendesse as mudanças que estavam acontecendo comigo.

Quando comecei a estudar os movimentos feministas e ler alguns livros clássicos, percebi que aquilo não era tão “normal” quanto me diziam e que eu poderia, sim, me revoltar contra aquela situação. Quando comecei a conversar sobre esses assuntos, percebi que todas nós passávamos pelas mesmas situações e que nenhuma de nós sabia exatamente como lidar com elas, que, apesar de incômodas, se apresentavam como um desafio. Me lembro que, aos poucos, comecei a dizer que eu era feminista. Mas, também me lembro que essa palavra nunca era pronunciada até o final e que era sempre em um tom mais baixo na conversa. Eu ainda tinha vergonha e achava que seria julgada por assumir essa posição.

Depois, quando eu já falava “Feminista” em alto e bom tom, comecei a me questionar porque não fazia falas sobre a legalização do aborto que, na minha cabeça, já era uma luta óbvia. Percebi que estava sendo movida pelo medo da rejeição social e de ser apontada na rua como bruxa, aborteira ou sei lá, qualquer coisa assim. Viver em uma cidade pequena, lugar em que todos se conhecem, pode não ser tão simples para uma jovem mulher, ainda insegura. Hoje percebo que esse sentimento acabou limitando meus primeiros anos de militância em prol da garantia dos nossos direitos.

Aí aconteceu o grande PLIM! Eu, finalmente, descobri que não estava sozinha. Olhei à minha volta e reconheci muitos ideais parecidos em mulheres que desejavam lutar por um mundo mais justo e igualitário. Percebi que somos muitas. Muitas bruxas incríveis, admiráveis e prontas para discutir e lutar lado a lado. A partir daí, comecei a bradar minhas ideias de liberdade e a defendê-las de forma pública e fundamentada. Nessa época, eu já sabia que nunca mais estaria sozinha e isso me deu segurança para seguir em frente.

Para mim, esse é o grande lance do movimento feminista de ontem, de hoje e das futuras jovens que se preparam para mudar o nosso futuro: A Sororidade! Entender que estamos juntas, e que o problema de uma também é problema de todas é fundamental. Por isso, vamos lutar para que nossos direitos não sofram um retrocesso maior do que aquele que já estamos testemunhando. Vamos nos unir e mostrar que a força da mulher ocasiona as grandes mudanças do mundo. Vamos dizer para onde queremos ir e seremos ouvidas. Hoje, o nosso feminismo é ainda mais político! Somos muitas e somos fortes. Não duvidem.

Gabriela Cunha Ferraz é advogada, mestre em Direitos Humanos, militante e realizadora do Projeto Vidas Refugiadas (www.vidasrefugiadas.com.br).
Segunda-feira, 16 de maio de 2016
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