A Jogada de Temer e do PMDB | Jogos de Poder #8
Terça-feira, 24 de maio de 2016

A Jogada de Temer e do PMDB | Jogos de Poder #8

Excelentíssimos, o Jogos de Poder desta semana, a pedidos de vocês, traz uma análise minuciosa da política do PMDB agora na Presidência da República. O que diria Maquiavel se fosse conselheiro de Michel Temer? Quais são as jogadas possíveis do PMDB, pontos fortes e pontos fracos? Temer tem se apresentado como aquele capaz de construir a união nacional e o diálogo. Sua intenção é criar um ambiente de otimismo. Isso é possível? Como se comportarão os seus inimigos? Esse jogos de hoje é pra Frank Underwood nenhum botar defeito.

Quem é o PMDB?

PMDB é um partido vindo da oposição maquiada na ditadura militar e tem como vantagem sua capilarização nas mais variadas regiões do país. Em 1989, durante a redemocratização, com a vitória sobre os militares, não faltaram concessões de rádio e TV dadas a políticos do PMDB Brasil afora, o que tornou o partido muito bom de voto. Desde muito, é conhecido pelo seu fisiologismo, isto é, compõe com seja-lá-quem-estiver-no-poder. Dentre seus políticos, as linhas ideológicas são predominantemente de centro e centro-direita.

Quem é Michel Temer?

Temer é Presidente do PMDB há 15 anos, conhecido como um dos caciques do partido, articulador de alto escalão, mas ruim de voto. Seu perfil ideológico é tido como utilitarista, liberalista econômico de centro-direita.  Advogado, Professor de Direito Constitucional, foi Maçom por mais de uma década e apresenta abertamente um pensamento também religioso. Seu discurso é amigável ao eleitorado conservador, detentor do capital financeiro e donos dos meios de comunicação.

Partindo da posição central, de articulação nos bastidores, agora o PMDB vai ser testado no comando do executivo nacional. As técnicas de jogo mudam completamente e as habilidades exigidas são outras. Existe o risco do teto de vidro do PMDB cair diante da exposição e excesso que exige uma presidência em épocas de crise. E não faltam inimigos para jogar pedra e, agora, até para bater panela. Eles já demonstraram saber jogar longe dos holofotes, será que saberão jogar super expostos? Talvez para fazê-lo eles deverão se inspirar em figuras conservadoras e enfrentar os períodos de tribulação com mão de ferro e baixa popularidade. A escolha para o futuro de Temer está entre ser temido ou amado. Se mover de um extremo para o outro durante uma fase de indecisão interna e disputas de poder pode ser perigoso. Mas, para ganhar o jogo deve fazer o que sabem de melhor: manter-se em adaptativa centralidade.

Provavelmente dentro do lema Ordem e Progresso, a preocupação principal é o controle de distúrbios civis e austeridade. Os cortes de ministérios já começaram e eles representaram uma redução econômica simbólica, mais para demonstrar ação do que para uma economia efetiva. Como se sabe, muito da política são símbolos: "Não pense em crise, trabalhe." Como um bom liberal, este é o recado do presidente: resolva você mesmo o problema!

Em entrevista, Temer assumiu a ideia de que as crises são movidas muitas vezes por falta de confiança. E, por óbvio, podem ser insufladas em uma espiral pela grande mídia, e para combater este mal ele fez este slogan. Não pense em crise. Não pense! Trabalhe. É mais ou menos o que o Lula fez durante o seu governo, mas sem o mínimo de delicadeza. Lula fez questão de garantir a confiança do povo e dizer que o Brasil poderia ser primeiro mundo e o brasileiro deve ser orgulhoso do seu país. A confiança projetou o Brasil e, de certa form,a por um tempo embalou. Temer é mais seco. Não pense, trabalhe. São estilos diferentes que visam a mesma objetividade.

Como principais aliados, Temer pode contar em princípio com a Rede Globo e o Grupo Abril, pois certamente possuem muito a perder com uma eventual volta do governo petista. Entretanto, outras mídias ainda não marcaram muito a posição se farão as vezes deste governo. Pode-se dizer que as linhas editoriais estão de sobreaviso, esperando uma sinalização mais firme da população. Por ora, aparentemente, a linha que vender mais jornais leva o jogo. As redes sociais serão determinantes no processo de posicionamento editorial das grandes mídias. Do outro lado, parte das mídias independentes já se posicionaram contra o Temer, inclusive diante dos cortes de Ministérios relacionados a comunicação social e com a incessante sinalização de cortes de verbas de incentivo. As mídias independentes estão sob ataque e a comunicação do governo já está sendo inteira trocada. Até mesmo a área de jornalismo pública, que veicula matérias que costumam pautar a grande mídia, como a EBC.

O cenário para a gestão interina e possível continuidade até 2018 é calamitoso. No momento, se a legitimidade de Dilma era baixa, o presidente tem falta de legitimidade política completa. Não falta só legitimidade como também se questiona a legalidade do procedimento de impeachment que está a ocorrer sob a batuta do PMDB. Este governo terá que conviver com uma necessidade latente de tomar medidas impopulares para corrigir os deficits econômicos acumulados nos últimos tempos. Agora, o governo Temer deverá fazer abertamente tudo aquilo que o governo Dilma disfarçava para fazer e evitar ser comparada com um governo economicamente liberal. A agenda é em parte parecida, tanto que 60% dos ministros já o foram em governos petistas. Temer não tem a máscara do viés progressista para se esconder, pelo contrário, ele já parte taxado de alguém que não se deve confiar, seja pela esquerda, quanto pela direita.

Do mesmo modo, pode-se dizer que governos hereditários encontram menos dificuldades em se manter, já que o bastão foi passado por um político do mesmo partido e o povo já está habituado com o modo de agir do político anterior. Isto acontece pois para governar minimamente em uma gestão continuada basta não transgredir os costumes do anterior e lidar de forma prudente com as circunstâncias à medida que surgirem. Fazendo isto, qualquer político com poderes medianos mantém seu estado. Não é o caso da troca de PT para PMDB. Para atingir o êxito, Temer deve pregar a necessidade de mudança, mas não pode mudar muita coisa ao mesmo tempo. E se precisar agir, que faça mudanças dolorosas rápidas e bem feitorias vagarosamente. Às vezes, pode-se conquistar muito mais praticamente não fazendo nada. Mas ele deve ter muito cuidado: se ele fizer o mal rápido, mas de forma desmedida, corre o risco de, em meio a tanta impopularidade, cair de vez.

No caso do governo Temer, ele não só terá que governar em um cenário de violenta oposição, mas também duplamente perseguido. Se ameaçar eleição em 2018 não só a base do PT, mas também a do PSDB tratarão de aniquilá-lo sem contar os outros partidos. No caminho da tomada de poder da presidência, Temer e o PMDB feriram muitos inimigos. Também não será possível manter na máquina pública os amigos que lhe colocaram lá no Gabinete da Presidência. Isto normalmente ocorre porque os aliados não costumam se satisfazer depois de uma tomada de poder ou uma revolução. Disputas por cargos tendem a gerar fragilidade entre aliados. Provavelmente, o PSDB dificilmente ficará satisfeito. Será difícil agradar de forma equânime os 3 caciques: Alckmin, Serra e Aécio. E o pior disso para o PMDB é que não é possível ignorar, eliminar ou tomar medidas drásticas, pois agora estão vinculados. O partido pode ter cometido um erro estratégico de ter se unido a um aliado tão ou mais forte que ele. Na hora do racha aliados são mais perigosos que inimigos declarados.

Como articulista de mesa fina, de perfil aristocrático, será difícil Michel Temer ter sucesso ao conversar com as massas, pois se já não inspira confiança nem entre a classe política, imagina com parte da população o taxando de golpista dia e noite. Outra fraqueza do PMDB é não poder contar com nenhum tipo de militância a seu favor, pois não construiu isto em nenhuma jornada de luta popular. Pelo contrário, dependendo dos humores midiáticos terá uma horda de manifestantes verde e amarelo pedindo sua cabeça e com certeza toda militância de origem progressista levantando a corda. Para evitar este cenário, uma pequena vitória rápida pode gerar confiança entre os aliados, enfraquecer os inimigos, demonstrar habilidade e parecer audacioso. Em um estágio de crise avançado, não é preciso muito para animar as pessoas.

Algumas inabilidades políticas podem colocar o governo em saia justa, por exemplo, diante do fato de até então não ter colocado nenhuma mulher em um ministério. Ou ainda, mais recentemente ter dito que colocaria sua esposa Marcela para cuidar de toda área social do governo. De alguma forma, isto poderia denotar uma relação monárquica em que a mulher do rei agrada o povo, dá esmolas e diz que cuida dos pobres. Este comportamento não será aceito, pois o cuidado do social, principalmente na área de Direitos Humanos, é a marca que legitimou as eleições de 2014 e o propósito para ter colocado o PT no poder. A indignação das pessoas ao perceberem que ele não tem tato para esta área da política poderá acelerar ainda mais a sua queda; portanto, ele deve evitar cometer deslizes nas áreas sociais e buscar ser muito melhor assessorado.

Neste momento o PT é capaz de arriscar tudo em uma luta. Isso os coloca em extrema vantagem. Eles não têm nada a perder. Reconciliação está fora de questão, somente um pode ganhar. E contra um inimigo deve-se ganhar completamente. Ambos os jogadores estão com todas as fichas na mesa. All in. Para a oposição ao governo interino, pode-se atacar da seguinte forma: wem um governo coeso e experiente, em um momento de crise, basta atacar a imagem pressionar o príncipe, prendê-lo contra a parede para que as estruturas sejam testadas, os egos inflados e os erros cometidos. Nada enfraquece mais o seu aparato de poder, de forma irreversível do que a desintegração da sua coesão interna.

Analisando o jogo a partir da perspectiva maquiavélica e adequando ao personagem e estilo de jogo do Michel Temer, para que ele saia bem sucedido deverá criar uma atmosfera de Temor e se colocar como ponto de estabilidade. Suas primeiras ações devem ser uma auditoria da gestão petista, para não só dizer que a culpa da crise não é dele, mas para afundar o PT. Ele deve conseguir vender ao povo uma luta contra um inimigo em comum, seja qual for este inimigo, desde que una a nação.

Durante a crise, o presidente deve tirar o foco da presidência e utilizar o tempo ao seu favor; esperar a poeira baixar e evitar batalhas desnecessárias. O tempo pode curar as feridas sozinho. Ele precisa conseguir desmantelar a mídia opositora, enfraquecer todos, bem como retirar as metodologias de análise do governo. Números oficiais devem ser maquiados e não passíveis de uma controladoria interna. A crise deve ser abafada com um punho de Ferro.

A oposição ao governo deve ser tachada de desordeira e vândala, que não comunga com o espírito de progresso. Com o tempo, depois de controlado o povo, a austeridade pode fazer caixa e gradualmente retornar em forma de benfeitorias à população. Para completar o governo deve abrir portas para o parlamentarismo, para garantir mais poder para o PMDB depois que largar o poder. Quanto ao lidar contra os seus inimigos, como disse Napoleão Bonaparte: para conquistar a última vitória você precisa ser impiedoso. Ou seja, vale tudo, desde que sorrindo na foto ou com uma decisão judicial.

Nos Jogos de Poder da semana que vem você poderá escolher entre o papel do STF no momento atual, ou a guerra de comunicação entre defensores ou opositores ao impeachment. Comente aqui embaixo o que você quer ver na semana que vem e não se esqueça de seguir o nosso canal do Youtube e o nosso Feed de notícias do Facebook, pois só assim você verá o programa da semana que vem. Eu sou o André Zanardo, me chamam de Filho Bastardo do Príncipe. Nos vemos no próximo Jogos de Poder.

Terça-feira, 24 de maio de 2016
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