Caso Abdelmassih explica a cultura do estupro
Sábado, 28 de maio de 2016

Caso Abdelmassih explica a cultura do estupro

No segundo semestre de 2014, a Faculdade de Medicina da USP formou uma comissão de sindicância para investigar atos de violência física e emocional cometidos contra calouros nos tão tradicionais quanto desumanos trotes do início do ano letivo. O relatório final da comissão computou oito acusações de estupro desde 2011. Os oito ataques sexuais, todos promovidos em festas da faculdade, tinham um importante ponto em comum: a universidade fingiu que eles não aconteceram e nenhum procedimento sério de apuração foi em frente.

Este fato está relatado no epílogo do ótimo livro “A Clínica – A farsa e os crimes de Roger Abdelmassih”, escrito pelo jornalista Vicente Vilardaga e publicado pela editora Record. Terminei de ler o livro na quinta-feira, com aquela boa sensação de que o jornalismo não morreu. Está bem vivo e migrando das páginas dos jornais e das revistas para as dos livros. O relato de Vilardaga é uma reportagem bastante apurada e muito bem escrita sobre a vida do “médico monstro”, que estuprou dezenas de pacientes em sua clínica enquanto elas estavam dopadas ou fragilizadas pela ansiedade de se tornarem mães.

Acabei a leitura, fechei o livro e, por força de um mau hábito, peguei o celular e entrei no Facebook. Minha linha do tempo estava tomada de protestos por conta do estupro coletivo de uma menina de 16 anos no Rio de Janeiro. A imprensa noticiava que homens fizeram circular na rede um vídeo em que mais de 30 marmanjos seviciavam uma garota.

A notícia, infelizmente, não me espantou. Eu havia acabado de sair de um relato que, apesar de não ter essa pretensão explícita, descortina que vivemos, sim, uma cultura de tolerância com o estupro. Abdelmassih só cometeu tantos crimes e com impressionante frequência graças à cumplicidade social em relação à violência sexual.

Isso fica bastante claro na excelente reportagem de Vilardaga. Abdelmassih sempre pôde contar com a omissão de funcionários, de colegas, do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) e, em alguns casos, até dos maridos de suas pacientes. Basta ler o episódio, relatado no livro, em que uma das vítimas sai da sala de Abdelmassih gritando após ter sido atacada por ele. O marido da vítima, que investiu R$ 30 mil no tratamento que poderia lhe trazer um filho e não queria perder dinheiro, pergunta para a mulher se ela tinha certeza do que ocorreu. Se ela não havia entendido errado o ato do médico.

Para entender a essência da “cultura do estupro”, expressão que tomou de assalto as redes sociais nos últimos dias, é fundamental ler a história de Roger Abdelmassih. O arcabouço de proteção erguido em torno do médico, a falta de fiscalização e de ação do Cremesp ao engavetar todas as acusações conta ele e o xadrez da investigação para conseguir provas do cometimento de crimes que, em regra, se resumem à palavra da vítima contra a do acusado, expõem a cruel vulnerabilidade imposta às vítimas e o quanto são precárias as respostas que a sociedade oferece ao problema.

Desde as primeiras queixas feitas ao Cremesp ainda no início da década de 1990 até ser condenado pela juíza Kenarik Boujikian Felippe a 278 anos de prisão por 48 crimes de variados graus, em novembro de 2010, o médico contou com a conivência de um leque de pessoas e instituições só explicável pela cultura do silêncio em relação aos delitos sexuais, por uma espécie de dúvida permanente que paira sobre a palavra das vítimas.

Além dos estupros, o médico manipulou ilegalmente material genético e enganou seus pacientes sem qualquer remorso: “turbinou” óvulos de mulheres com DNA de outras mulheres, fecundou óvulos com espermatozoides que não pertenciam ao marido das pacientes – em alguns casos, usou seu próprio esperma. Descoberto por uma de suas clientes, deu a ela, sem dizer para que serviam, dois comprimidos abortivos para que a gestação fosse interrompida e ela não pudesse provar a grave fraude. Não fossem alguns poucos e teimosos jornalistas, promotores e vítimas, seus crimes não teriam sido revelados.

Em 1970, pouco mais de um ano depois de se formar, Abdelmassih colocou uma paciente em um verdadeiro cárcere privado no Hospital Irmãos Penteado, em Campinas. Sem que pudesse se locomover e sem acompanhantes no quarto, à exceção de uma mulher cega, a paciente virou uma espécie de escrava sexual. Enfermeiras e outras pessoas do hospital notaram algo estranho, mas nada fizeram. Na mesma época, os médicos comentavam que ele havia atacado uma enfermeira. O caso repercutiu e ele se afastou discretamente do hospital, sem que seus atos tivessem maiores consequências. Alguém dúvida que a omissão inicial foi determinante para os crimes futuros?

No caso do estupro coletivo do Rio de Janeiro – e neste sábado já circulam notícias sobre outro ataque idêntico no Piauí – houve quem tentasse atribuir a culpa pelo crime à pobreza dos atores envolvidos, aos bailes funk, à ausência do Estado no local e até à falta de informação. A ausência de Estado pode favorecer crimes. Isso é fato. Mas não podemos dizer que os estudantes da Faculdade de Medicina da USP que estupraram suas colegas e contaram com a omissão da universidade sejam exatamente pobres ou que há falta de Estado na faculdade. Podemos?

Podemos procurar quaisquer justificativas para o ato. Mas a mais palpável e próxima da realidade é que os mais de 30 sujeitos que estupraram a garota fizeram aquilo simplesmente porque achavam que podiam. Acreditavam que o ato não é lá tão grave. Tanto que filmaram o crime e divulgaram o vídeo da barbárie pelas redes sociais. “Amassaram a mina, intendeu ou não intendeu? kkk”, escreveu um deles ao compartilhar o vídeo do estupro. “Estado do Rio inaugura novo túnel para a passagem do trem bala do marreta”, dizia a legenda de uma foto do mesmo estupro postada por outro indivíduo.

Talvez pouca coisa explique melhor o ato e sua exposição quase natural do que a noção de banalidade do mal conforme a formulou Hannah Arendt na década de 1960. A filósofa foi incompreendida e muito criticada quando a sugeriu que Adolf Eichmann não passava de um burocrata alemão cumpridor das suas obrigações, na visão do próprio nazista. O fato de ele ter embarcado, em trens, milhares de judeus cujo destino era a morte e a tortura nos campos de concentração não lhe tirava o sono.

Afinal, ele cumpria as regras vigentes e plenamente aceitas pela sociedade da qual fazia parte. Para os nazistas, não havia nada de mais no ato de mandar judeus para a morte. Na série de artigos publicados na revista The New Yorker em 1963, que se transformaram no livro “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, Hannah Arendt mostra que o nazista não revelava ódio ou asco em relação ao povo judeu. Ele apenas atuou de acordo com o que acreditava ser seu dever funcional, sem questionar ordens e normas ou refletir sobre o mal que seus atos poderiam causar.

E o que o exemplo superlativo do nazismo cultivado entre o espírito da banalidade e o sentimento de conivência tem a ver com o estupro coletivo, com as agressões sexuais nos trotes da USP ou com Roger Abdelmassih? Os jovens universitários que estupraram as calouras, o médico rico que estuprou as pacientes e os mais de 30 homens da comunidade pobre que estupraram a garota fizeram isso simplesmente por acreditar que podiam. Porque a mulher é vítima histórica de um processo de desumanização provocado pela misoginia que dá as cartas na nossa sociedade, que é plural e aberta apenas na teoria.

Estupradores talvez acreditem que possam estuprar porque não veem o ato com repulsa. O que causa isso é a existência dessa rede de proteção social que evita jogar luz sobre esses crimes e prefere varrer para debaixo do tapete os casos de agressão sexual. Logo, se não há reação da sociedade, o ato não merece repreensão. É uma cultura eficazmente desenhada em detrimento da humanidade da mulher.

Roger Abdelmassih é um símbolo maior dessa cultura de cumplicidade e omissão que envolve os crimes sexuais. Seu enredo explica à perfeição a naturalidade com que homens gravam o próprio crime e distribuem o vídeo por meio de redes sociais.

Rodrigo Haidar é Jornalista
Sábado, 28 de maio de 2016
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