O que é Sororidade e por que precisamos falar sobre?
Quinta-feira, 2 de junho de 2016

O que é Sororidade e por que precisamos falar sobre?

 

Primeiro artigo da coluna Sororidade em Pauta, composta pelas magistradas Célia Regina Ody BenardesDaniela Valle da Rocha MüllerElinay MeloFernanda OrsomarzoGabriela Lenz de LacerdaJuliana Castello Branco, Laura Rodrigues BendaPatrícia MaedaRenata NóbregaSofia Lima Dutra.

 

Para começo de conversa…

Ataques misóginos havidos recentemente provocaram-nos a escrever o artigo publicado no Justificando em 7 de abril deste ano com o título: “E se fossem um juiz, um presidente e um professor?”. Algumas de nós nem sequer nos conhecíamos pessoalmente, mas sabíamos que, além do ideal democrático, tínhamos em comum a tal da sororidade. Foi um trabalho virtual intenso e muito gratificante. Ao final, além do alívio de expressar nossa opinião sobre os fatos, para nós ficou a sensação de que poderíamos mais.

Éramos inicialmente cinco juízas do trabalho, sem nenhuma experiência parecida anterior. O grupo aumentou. Expandiu seus horizontes para além do direito do trabalho. Hoje somos dez. Somos mulheres, mães, filhas, esposas, namoradas, irmãs. Somos também juízas. Inquietas, desacomodadas e inconformadas. Em tempos de mulheres invisíveis, decidimos nos unir para ecoar a voz daquelas a quem querem calar.

O que é sororidade?

Sororidade é uma aliança firmada entre mulheres, baseada na empatia, irmandade e companheirismo. A palavra não existe na língua portuguesa, oficialmente. No dicionário, a que mais se aproxima seria a palavra fraternidade, advinda do termo latino frater (irmãos), a qual, não por coincidência, significa tanto solidariedade de irmãos como harmonia entre os homens. Do termo latino sóror (irmãs), nenhuma palavra tradicionalmente se originou, como se desde a formação da língua portuguesa já houvesse a intenção de naturalizar o fato de que, supostamente, relações harmoniosas e solidárias acontecem apenas entre homens.

Assim, a sororidade, enquanto termo e enquanto sentimento, surge e se fortalece da necessidade das mulheres de compartilharem experiências subjetivas, a partir de relações positivas e saudáveis umas com as outras, formando e fomentando alianças pessoais, sociais e políticas, empoderando-se e criando elos importantes para combater e eliminar as diversas formas de opressão perpetuadas ao longo dos séculos pelo patriarcado.

Não por acaso, um dos aspectos da sororidade é a crítica à misoginia, em um esforço pessoal e coletivo de demonstrar às próprias mulheres que alguns ou vários de seus comportamentos – fruto, é claro, da cultura historicamente machista – somente reforçam esse cenário, o que enfraquece o movimento feminista e, por consequência, todas as mulheres.  

Mas essa postura somente é possível a partir do momento em que as mulheres passam a perceber que o patriarcado, para manter o status quo, incentiva a desavença entre elas, para que estejam em eterna disputa, envolvendo-se em intrigas e comentários preconceituosos que destroem as subjetividades umas das outras. Trata-se, de fato, de uma estrutura de dominação e opressão que assume uma faceta cruel ao transformar as vítimas (mulheres) em suas próprias algozes, permitindo, com isso, que se deixe o campo livre para eles, os homens, ocuparem-se das questões que a elas dizem respeito. Enfraquecer a união entre as mulheres é impedir que, coletivamente, seja questionado o lugar a elas imposto.

E, ao combater naturalizações que historicamente justificam desigualdades e endossam discursos de sua própria subjugação, as mulheres começam a perceber, juntas, outras amarras que pretendem oprimir e calar, arraigadas de preceitos classistas, racistas, lesbofóbicos e transfóbicos. Não se trata, assim, de um feminismo branco, burguês e cis (de mulheres cujo gênero equivale àquele designado em seu nascimento), mas, sim, da sororidade que abarca todas as mulheres possíveis.

Quebrar o ciclo de poder estabelecido é urgente. Cada vez mais, mulheres se unem aumentando a rede de afeto e empatia, (re)significando a irmandade enquanto espaço de força para uma luta que é árdua, mas, diante da singularidade feminina, elas sabem muito bem como enfrentá-la, vestindo do rosa às cores do arco-íris. A partir daí, as mulheres passam a ver o mundo sob nova perspectiva, respeitando a si mesmas e ao seu gênero e, portanto, a todas as outras mulheres. De maneira crítica, passam a recusar a supremacia do homem e a centralidade da masculinidade.

Agora que conhecem o nosso projeto, venham pautar conosco a sororidade, para que possamos cada vez mais reverberar: Mulheres do mundo, Unamo-nos!

Nós por nós mesmas

Célia Regina Ody Benardes é Juíza Federal em Tabatinga-AM e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia), de cujo Conselho de Administração foi Secretária entre 2013 e 2014. Também integrou o Conselho Editorial da AJD, mas a atividade associativa que mais a apaixona é a militância no Sistema Interamericano de Direitos Humanos. É Mestra em Filosofia pela UFPE (“Racismo de Estado: uma reflexão a partir da crítica da razão governamental de Michel Foucault”, Editora Juruá). Sonha com e luta por uma sociedade justa, fraterna e solidária, em que as pessoas experienciem a concretização de seus Direitos, mantendo no horizonte a divisa de Las Casas, “Todos os direitos para todos”, farol a iluminar a utopia de Victor Hugo, “Tudo para todos”.

Daniela Valle da Rocha Müller é membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Foi advogada na área de Direitos Humanos e também trabalhista, já foi Juíza do Trabalho na 10ª Região e desde 2001 é Juíza do Trabalho da 01ª Região, Rio de Janeiro. Atualmente é diretora de Direitos Humanos da AMATRA-1, vegetariana, mas não todos os dias, mãe, cozinheira e entusiasta da produção orgânica, vai se virando no meio da luta de classes e sonha com a eficácia plena da legislação social.

Elinay Melo foi juíza do trabalho no TRT da 14ª Região (Rondônia e Acre) e removida por permuta para o TRT da 8ª Região (Pará e Amapá). É especialista em Economia do Trabalho e Sindicalismo pelo CESIT/Unicamp, diretora financeira da AMATRA 8 (Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 8ª Região –  biênio 2016/2018) e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Mas seu título mais importante é ser mãe de dois meninos, João Pedro (09 anos) e Antônio (03 anos), que lhe exigem o exercício diário de educá-los com espírito de solidariedade e empatia com o outro, respeitando as diferenças e, principalmente, as mulheres.

Fernanda Orsomarzo é juíza de direito no Paraná. Vegetariana há 8 anos. Tem por ideal viver a magistratura fora do gabinete, na busca por uma cultura de alteridade, respeito às minorias e livre da exploração de animais humanos e não-humanos. É pós-graduada em direito penal, pós-graduanda em filosofia e direitos humanos pela PUC-PR e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia).

Gabriela Lenz de Lacerda foi Juíza do Trabalho do TRT da 15ª Região e atualmente é Juíza do Trabalho da 4ª Região. Apaixonada por livros, música e poesia, acredita realmente que pequenas iniciativas podem tornar o mundo um lugar melhor. É  associada à AMATRA 4 (Associação dos Magistrados da 4ª Região), à ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho) e à AJD (Associação Juízes para a Democracia).

Juliana Castello Branco é mulher, mãe, foi juíza do trabalho da 12ª Região (Santa Catarina) e atualmente é juíza do trabalho da 53ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro. Associada à AMATRA1 (Associação dos Magistrados da 1ª Região), à ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho)  e  membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Adora programar e fazer viagens, ler poesias e ouvir MPB. Entusiasta do pensar e fazer coletivos, acredita que a sororidade não vai mais sair de pauta.

Laura Rodrigues Benda foi Juíza do Trabalho do TRT da 15ª Região e atualmente é Juíza do Trabalho do TRT da 2ª Região. É diretora de assuntos legislativos e institucionais da AMATRA 2 (Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 2ª Região – biênio 2016/2018) e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Gosta de política, de cinema e de gastronomia. Acredita que a luta é coletiva e que o amor é revolucionário.

Patrícia Maeda é juíza do trabalho no TRT da 15ª Região (Campinas/SP) e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Foi escrevente técnica judiciária no TJ/SP e auditora-fiscal do trabalho do Ministério do Trabalho. Mãede duas feministas mirins, esposa, corredora de rua e fora do estereótipo de “bela, recatada e do ‘lar’”. Defendeu sua dissertação de mestrado com o título “Trabalho no capitalismo pós-fordista: trabalho decente, terceirização e contrato zero-hora” recentemente na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. É pesquisadora do Grupo de Pesquisas Trabalho e Capital – GPTC/USP.

Renata Nóbrega é mulher, membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia) e juíza do trabalho no TRT da 6ª Região. Foi agente de polícia, delegada e serventuária da justiça federal. Curiosa e precisando de poucas horas de sono para viver, vai deixar para dormir quando morrer. É casada com uma mulher que adora dormir. Mestranda em História Social pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Percebe que o capital rotula, pintando peles de cores e apelidando sexos de frágeis, mas acredita na paleta viva do arco-íris e na força da luta nada frágil do feminismo revolucionário para rearranjar a estrutura dinâmica de gênero e classe.

Sofia Lima Dutra é juíza do trabalho do TRT da 15a Região, em Campinas/SP. Foi advogada trabalhista no estado do Pará, de 2007 a 2009. É especialista em Economia do Trabalho pela UNICAMP, membra da Comissão de Prerrogativas da AMATRA 15 (Biênio 2015/2017) e membra da  AJD (Associação Juízes para a Democracia). Dedica sua vida à filha Júlia, a viajar pelo Brasil e pelo mundo, além de colecionar poesias e filmes clássicos. Sua mais nova conquista é ser meia maratonista.

Foto: Mídia Ninja
Quinta-feira, 2 de junho de 2016
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