Os 33 e a culpa de todos nós
Sexta-feira, 3 de junho de 2016

Os 33 e a culpa de todos nós

Geralmente os debates entre visões de mundo opostas não me empolgam muito, porque normalmente se passam longe, muitíssimo longe, de qualquer diálogo verdadeiro. Não há construção, não há cuidado com o que se fala, não se está disposto a abrir mão das próprias convicções, nada disso: é um simples e singelo duelo de forças. Nas raras vezes em que escutamos o argumento contrário, nossa cabeça prontamente se revira, não com vistas a encontrar ali algum valor, mas com vistas a desconstruir o que ouvimos.

Assim temos passado os últimos meses, anos, décadas, talvez séculos.

Mas eis que observamos, na semana passada, uma ruptura nessa ordem de coisas – infelizmente, a partir de um fato trágico.

Estupro da menina de 16 anos por 33 homens. A reação natural generalizada seria a que foi vista em grande parte por aí: esses 33 monstros devem ser aniquilados ou, se formos bondosos, castrados. É o impulso humano natural de, antes de tudo, acusar o outro em vez de olhar para si e para o próprio modo de pensar.

Algo surpreendente aconteceu, porém. Ao lado dessas reações previsíveis, vieram outras – que, claro, sempre vêm, mas desta vez foram muitas. Foram generalizadas. Vieram de todos os lados. Rapidamente, conseguiram seu espaço num ambiente que sempre lhe foi desfavorável: o ambiente mainstream. Claro, o discurso de ódio localizado continuou forte, mas talvez ainda mais forte tenha sido o discurso mais refinado que atenta à cultura como um todo e a cada um de nós.

Esta parece ser uma constatação certa: o caminho em direção à maturidade psicológica é o caminho de preferir olhar para dentro a olhar para fora, preferir olhar para mim a olhar para o outro. O problema não são os 33 isoladamente considerados, mas são os 33 que deram expressão brutal a algo muito maior do que eles. Não que sejam apenas vítimas do contexto, longe disso: são todos adultos, responsáveis por seus atos e por suas escolhas. Mas são também condicionados por uma cultura que não apenas viabiliza, mas, em nível inconsciente, encoraja escolhas individuais por atitudes brutais.

Pela primeira vez, ao menos até onde minha memória alcança, o discurso que atenta ao outro lado também ganhou espaço. Não há dúvida de que isso é mérito de lutas feministas que têm, por tempos, golpeado os rígidos muros do modo tradicional de ver o mundo. Os golpes aqui e ali causam rupturas. De repente, brechas maiores se abrem. De repente, uma fissura enorme se faz. O muro ainda está ali – seria ingênuo demais imaginar que não –, mas já não é mais o mesmo. Imagino que assim se desenhem todas as mudanças ideológicas significativas em qualquer sociedade.

Já conhecemos bem o discurso da responsabilidade do infrator. Este é nosso muro rígido construído a muitas mãos, por muito tempo. Nada há de errado com este muro e este discurso em si. Mas há algo errado sempre que imaginamos que uma abordagem unilateral possa trazer as respostas complexas que os problemas complexos demandam. A fissura neste muro que por tempos sem fim tem bloqueado a visão do horizonte agora permite, enfim, que novas luzes cheguem à consciência social. São os 33, mas não só os 33. São os duzentos milhões de brasileiros que seguem reproduzindo uma cultura que viabiliza e subterraneamente encoraja atos como o que aconteceu. É toda uma cultura mundial que escolheu suprimir a glória e o poder do feminino. São os pensamentos misóginos que, queiramos ou não, percebamos ou não, passam pela minha cabeça. E pela sua.

São os 33, mas também somos eu e você. Somos principalmente eu e você.

Assim talvez se possa começar a construção de um novo muro – toda sociedade terá os muros de suas próprias crenças. Mas podemos pensar em construir muros com algumas passagens, algumas aberturas propositais. Esta parece ser uma boa imagem de um bom diálogo: em vez de muros rígidos e golpes que querem aniquilá-los, muros arejados e em constante reconstrução. São os 33, mas também somos eu e você. Somos principalmente eu e você.

Resta esperar que essa mesma lógica se estabeleça e se expanda. Que aprendamos a olhar para fora e para dentro. Não só em atos tão bárbaros como o da semana passada, mas em muitos outros, talvez todos os outros. Sempre haverá alguém que podemos culpar por qualquer coisa que aconteça a nós, a nossos próximos, ao mundo, e a responsabilidade provavelmente estará de fato ali onde, por impulso, de pronto enxergamos. Mas não só ali. A responsabilidade está também aqui. Sempre esteve. “Todos somos culpados por tudo e por todos, e eu mais que todos os outros”, na colocação clássica de Dostoievski. Resta esperar que seja esta a hora em que começaremos a realmente perceber isso.

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro "Carl Jung e o Direito Penal".
Sexta-feira, 3 de junho de 2016
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