A bárbara morte de uma criança de dez anos de idade
Segunda-feira, 6 de junho de 2016

A bárbara morte de uma criança de dez anos de idade

Como justificar o disparo contra uma criança de dez anos? Em nome de qual excludente alguém se apresentaria à sociedade, dizendo que matou um garoto de dez anos a tiros, para se defender? Em nome de qual excludente os odiadores, cheios de lei & ordem, aplaudiriam o soldado que disparou contra o menino de dez anos? Com que cara se defende uma coisa assim? Com que cara de pau e cinismo no rosto se defende algo assim? Com que absoluta ausência de empatia se defende algo assim? 

Provavelmente, quem atirou e matou uma criança tenha as suas em casa. Pode ser que tenha um filho de dez anos. Espero que não. Mas seria absolutamente normal que, tendo, ele se vestisse de Papai Noel para o filho, escondesse ovos de páscoa, humildes que fossem, em algum canto da casa, tirasse fotos seguidas de aniversários, onde o filho estivesse em seu colo, com os olhos brilhantes de criança. Nesses momentos, não passaria por ele que, sim, dispararia contra alguém daquela fragilidade. Um filho de dez anos ainda nos busca abrigo no colo. Ele atirou num menino de dez anos. 

Não foi preso. Não foi sequer identificado. Os jornais da manhã destacaram o precoce envolvimento do menino no mundo do crime, mas nenhum pareceu estarrecido com o fato de uma criança de dez anos ter sido morto a tiro por um policial militar, treinado e teoricamente preparado para enfrentar um perigoso ladrão de um metro e trinta centímetros de altura, que tivesse às mãos um revólver que não sabe manejar. Os jornais da manhã estavam preocupados com a violência, mas não a violência óbvia da morte de um menino de dez anos. Essa obviedade foi negada e posta sob a cortina de um estado de insegurança em que crianças usam armas. 

“É preciso apurar”. É preciso que se instaure uma investigação para se apurar profundamente se o policial militar – que atirou em um menino de dez anos – pudesse estar em situação de erro invencível; shit happens, dizem os americanos. Em seu favor, milita a presunção de inocência, que é de todos e em quaisquer circunstâncias. Se formos seletivos, romperemos o pacto federativo.  

O menino morto me lembra jesus cristinho. Morto por tudo o que de ruim lhe cruzou a vida, morto porque nasceu em uma sociedade sem esperanças, morto porque nasceu em uma sociedade que rutila seu ódio, nasceu em uma sociedade em que as pessoas não ficaram apavoradas diante de sua morte trágica, mas muitas elogiaram o policial, outras tantas, como os jornais da manhã, destacaram que ele tinha uma arma, mas não dedicaram um segundo a se perguntar quem havia colocado aquela arma em suas mãos, que mal conseguiriam segurá-la e que mal conseguiriam fazê-la disparar e que mal conseguiriam mirar para algum alvo, que não fosse ele próprio. O menino foi morto a tiro, numa guerra em que os fariseus ganham longe, ganham de goleada, ganham de todo jeito. O menino morto tinha um assecla, um menino de onze anos. Dez e onze. Dez e de onde?  

Por favor, peço aos odiadores do dia que me poupem de elogiar o policial que o matou, não sei com quantos tiros, não sei a que distância, não sei se pela frente, não sei se na corrida, não sei se o menino e o policial trocaram algum olhar, não sei se eles se viram, não sei, não sei e não sei. De pouco adiantaria saber. Peço aos odiadores, aos seguidores do coronel maldito que, ao menos dessa vez, me poupassem. Seria horrendo ver alguém ofendendo a memória de um garoto assassinado a tiros. 

Não direi uma palavra sobre direitos humanos, sobre dignidade humana, não. Me sentiria enojado se precisasse fazê-lo diante da morte tão bárbara. Também não gastarei meu dia pedindo providências, recuso-me. Me sentiria enojado se precisasse fazê-lo diante da morte tão bárbara. 

Aliás, é tudo que consigo sentir: enojado diante de uma morte tão bárbara. 

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Segunda-feira, 6 de junho de 2016
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