Humanidade que não nos pertence
Sexta-feira, 10 de junho de 2016

Humanidade que não nos pertence

O Brasil tem uma cultura profundamente marcada pelo sexismo e pela violência daí decorrente: as relações entre homens e mulheres são intensamente assimétricas, o que resulta em diversas formas de violência; desde as mais sutis, como a discriminação em ambiente de trabalho, até o feminicídio e outros atos de violência, como estupros coletivos.

Desde muito cedo, nós, meninas e mulheres, entendemos que temos um corpo e que esse corpo é fortemente marcado pelo gênero: é um tal de não sentar de pernas abertas, de não correr, de estar sempre bonita. Aliás, a beleza é fundamental, como já dizia o poeta, mas é preciso estar atenta: há um limite “adequado” para ser bela e sensual – se passar do ponto, nos tornamos vulgares demais. Com isso, aprendemos desde criança que temos um corpo e que esse corpo, potencialmente, será objeto de desejo de outros. A coisa fica mais evidente na adolescência e ainda mais estridente quando entramos no mercado de trabalho. Temos de ser “fortes” mas não muito, “femininas” mas não muito. São muitos excessos, que levam a piores pecados. A medida da sensualidade está sempre nesse olhar do outro, que controla e mede o que é excesso e o que não é: não somos donas dos nossos corpos ou dos nossos desejos. Existimos para o outro. E a todo tempo somos lembradas disso.

As fronteiras entre o que é aceitável ou não pode variar um pouco de acordo com classe social, idade, grupo étnico. Contudo, há algo mais geral que permeia essas relações todas: estamos ali para sermos desejadas, para sermos observadas, para darmos prazer ao outro. Cruzar essa linha pode nos promover ao posto de vagabundas, ao posto daquelas que tomam muitas liberdades e que por isso são punidas, com violência. Isso pode significar muitas coisas em um continuum. Mulheres são julgadas o tempo todo, seja porque tomam a iniciativa em uma paquera ou porque usam roupas “provocantes demais”. Aquela promoção no trabalho pode ser apenas porque ela dormiu com o chefe. Nossa conduta sexual é continuamente escrutinizada, não temos muito espaço para sermos alguém fora desse ambiente de constante controle. As mensagens e lembretes estão em todos os lugares; na TV, nas músicas, na publicidade, nas piadinhas e brincadeiras, nos filmes, nas novelas, nos livros, inclusive aqueles didáticos que usamos nas escolas e nos informam como devemos nos comportar. O que vestir, como falar, qual o tamanho de nossos corpos, as formas, os desejos que podemos ou não ter. Somos avaliadas constantemente por nossa aparência e conduta sexual, mas o que temos a dizer nem sempre é levado em conta.

A forma como nossas vidas são marcadas pela consciência de termos um corpo que atiça desejos não é uma marca qualquer, mas, antes, é uma marca de poder, que indica que aquele que olha tem poder sobre quem é olhado. Nossos corpos são constantemente olhados e julgados, seja as ruas, no trabalho ou na escola, e nos deixam claro que não somos importantes, mas apenas corpos e apenas enquanto corpos importamos. Reclamações são vistas como sinais de que não nos conformamos às regras, aos espaços que nos foram destinados, ou, ainda pior: de que não somos "boas mulheres”. Mas quem afinal é a “boa mulher”? Ela não é exatamente um ser humano: seu corpo não é seu, seus desejos não são seus. Essa condição marca o seu lugar tanto nas esferas públicas como privadas, informando-a, fazendo-a sentir que o poder, nessa sociedade, na realidade, é masculino.

A violência sexual é, por excelência, a marca desse poder que se faz sentir no corpo dominado. É pela imposição do corpo do outro, de forma indesejada, invadindo os espaços mais íntimos que esse poder opera. Não se trata de sexo ou sexualidade, mas de pura dominação, imposição da força para deixar claro quem está no controle. Como todas as formas de violência, deve ser considerada inaceitável – nada justifica essa invasão. Mas em sociedades patriarcais, como a brasileira, ainda se buscam desculpas para não se responsabilizar o agressor: “ah, mas ela você viu como ela estava vestida? Estava pedindo!”; “ah, mas ela usa drogas, deveria ser mais cuidadosa!”; “Moça direita não sai sozinha a essa hora da noite” e tantas outras.

No fundo, a responsabilidade pela violência que sofremos é sempre nossa, nunca do agressor. Afinal, nós é que estamos fugindo do papel que deveríamos desempenhar, nós que estamos a reclamar uma humanidade que não nos pertence. E assim seguimos, tolerando grandes e pequenas violências: qual é o limite?

Tamara Amoroso Gonçalves é Mestra em Direitos Humanos pela USP e doutoranda em direito pela Universidade de Victoria, Canadá. Integrante do CLADEM/Brasil e do GEA. Pesquisadora associada do Instituto Simone de Beauvoir (Universidade Concordia, Canada). Autora de diversas obras sobre direitos humanos, dentre elas Direitos Humanos das Mulheres e a Comissão Inter-americana de Direitos Humanos (Saraiva, 2013).
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