Perdoai, Senhor, eles não sabem o peso de suas canetadas
Terça-feira, 14 de junho de 2016

Perdoai, Senhor, eles não sabem o peso de suas canetadas

Estava olhando agora por entre as grades fechadas. A quadra de esportes, nosso páteo, os corredores, tudo já vazio, mas as celas todas cheias. Incrível! Quanta tristeza pode ser concentrada em um espaço tão pequeno? Quanta saudade encarcerada em um mesmo lugar? É tanta que transborda pelos muros afora.

Não temos como quantificar esses sentimentos; mas, se tivessemos, será que mudaria algo? Será que teríamos uma regra, um limite, uma quantidade máxima de sentimentos ruins por metro quadrado?

É complicado….

O ser humano é altamente adaptável, se acostuma com tudo mesmo, não é? Por que não se adaptaria em ficar mal o tempo todo?

Esquecemos o que é bom, tudo se torna apenas uma vaga lembrança. Na medida em que o tempo passa, quanto mais passa, tudo fica longe da memória. As boas coisas já vividas, toda uma vida, apenas guardada nas lembranças, como um filme que assistimos há muito tempo.

Fatos, rostos; lembranças, apenas.

Porém, mesmo assim, aquilo que somos, o que vivemos, ninguém nos tira. Só mesmo o tempo. Ah, o tempo….

O tempo leva tudo.

Tudo aqui nos é proibido, não posso receber a visita de minha filha de 17 anos, que é menor de idade, porque, mesmo eu tendo a guarda, sou separado da mãe dela.

Jornais e revistas também não são permitidos, não temos acesso. O por que disso? Boa pergunta! Não há lógica alguma, apenas a opressão pura e simples e a humilhação. Não existe outro motivo.

Vivemos quase na era medieval. Só mesmo o tempo para nos acostumarmos com tudo isso.

Aquele que inventou a grade não conhece a dor da saudade.

Muitos lá fora se perguntam sobre a quantidade de tempo em que ficamos presos, se devem aumentar as penas e tal. Mas alguém já perguntou isso para um preso ou um ex-detento? Ninguém entende mais de prisão do que nós! É o óbvio! O preso é que tem a vivência e a visão humana (ou desumana) do cárcere.

Porém, alguns podem alegar parcialidade nesse ponto de vista. Os mais teóricos, como juízes, promotores ou outros operadores do direito, só conhecem mesmo os “meandros” jurídicos. Não sabem – sequer imaginam – o peso de suas canetadas nas vidas alheias.

Para estes, apenas papéis frios, sem vida. Esquecem-se que, por trás destes simples papéis, existem vidas humanas, que passam dias, meses e anos aguardando decisões, com estragos inenarráveis em suas vidas, e, consequentemente, nas vidas de todos os seus familiares.

Aquele que inventou a grade não conhece a dor da saudade.

Uma vírgula mal colocada por um advogado menos atento pode ser a diferença entre uma vida com família, filhos, ou anos de sofrimento, humilhação e saudades. A subjetividade que causa marcas na vida dos outros para sempre.

Lembro da história na qual, por exemplo, a igreja católica, entidade séria e de respeito, protagonizou: a santa inquisição. Quantos inocentes sofreram mazelas e torturas monstruosas nas mãos dos juízes inquisidores?

Justiça?

Será que o homem sabe mesmo o verdadeiro sentido disso? Dessa palavra em seu sentido mais simples, sem ser parcial? A balança é realmente equilibrada? Ou ela tende a pender para o lado mais cômodo ou conveniente, apenas para dar menos trabalho a determinado juiz ou promotor, que se esquece da sua verdadeira missão, a Justiça?

Será que acreditam que se faz justiça com a injustiça, assim como na “santa inquisição”?

Bom, ainda estou preso, sozinho, humilhado. Meu destino não está mais nas minhas mãos.

Meu destino, minha vida, meu futuro, é apenas uma pasta de papeis no Fórum: o processo.

Só me resta mesmo é continuar olhando pelas grades. Por quanto tempo? Ainda não sei.

Já estou preso há um ano e meio, e tudo o que eu posso fazer é apenas esperar e ficar pensando, divagando.

Até quando?

André Ricardo é colunista por um dia na coluna Cartas do Cárcere. A coluna mostra relatos semanais de pessoas que vivem (e morrem) no sistema prisional brasileiro. 
*Todos os nomes desta coluna são fictícios para preservar a identidade dos apenados

***

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***

Confira a carta na integra

Terça-feira, 14 de junho de 2016
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