Jogos de Poder #10 – O passo a passo do impeachment
Segunda-feira, 20 de junho de 2016

Jogos de Poder #10 – O passo a passo do impeachment

A articulação do impeachment remonta a um processo de desconstrução midiática da imagem da Dilma e do PT que foi sendo cultivado anos a fio. Isso você pode conferir neste Jogos de Poder. Contudo, houve determinado momento em que tudo se tornou mais concreto e, então, o golpe passou a ser articulado às claras, nas mãos de agentes certos e determinados.

O impeachment passou a ser orquestrado de fato nas mãos de Eduardo Cunha e Michel Temer. Boa parte em razão das investigações da Lava Jato, que começaram a circundar o mundo político.

[OUTUBRO DE 2015]

No dia 02 de outubro de 2015, Cunha era capa de jornais sob suspeita de controlar 4 contas na Suíça. Esta foi a caixa de pandora. O político estava acuado, com o risco de todos os seus esquemas virem à tona. Este momento foi crucial na construção do golpe.

Treze dias depois, no dia 15 de outubro, Cunha começou a tentar a negociar o impeachment de Dilma como forma de se resguardar politicamente contra as investigações em curso. Ele praticamente disse: se não fizermos uma força-tarefa para me proteger, abrirei o procedimento de impeachment e utilizarei todas as minhas forças para derrubar a presidência.

Cunha é conhecido articulador, com várias investigações abertas, mas com passe VIP em todos os corredores mais importantes do país. As suas táticas de manipulação vão desde a montagem de dossiês contra seus aliados e opositores até a manobra de atos regimentais da Câmara e, óbvio, o controle da pauta da Casa.

No dia 17, aquelas contas da Suíça foram verificadas. Era tudo verdade. Cunha tinha um grande problema na mão: o risco de isolamento político, que já começava a ocorrer. Na política, normalmente se rouba junto, mas quem roda, roda sozinho. Com ele não seria diferente, se ele não fosse "o Cunha".

[NOVEMBRO DE 2015]

Menos de um mês depois, no dia 26 de novembro, o STF prendeu o senador Delcídio do Amaral, conhecido delator e conhecedor de vários esquemas políticos. A República dos Ratos estava na mão de um "cara quente" que poderia "derrubar geral". Os esquemas políticos estavam sujeitos a uma investigação inquisitorial de Sérgio Moro, o qual poderia começar a destruir a carreira de diversos políticos, se estes não começassem a se mobilizar de verdade.

[DEZEMBRO DE 2015]

O curso do rio tomou uma velocidade maior no dia 1˚ de dezembro, quando Eduardo Cunha deu seu último aviso ao PT. Sem resposta positiva, acuado e precisando provar sua ameaça, dia 4 acatou o pedido de impeachment. E o que o STF, guardião da CF, fez neste momento? Nada. Simplesmente nada. O presidente da Câmara dos Deputados chantageou a presidente da República em busca de apoio político para se esquivar de um crime, e nada aconteceu. Mesmo com recursos, o impeachment foi aberto e o STF, por omissão, falou o seu primeiro AMÉM.

A mais alta Corte do país, entretanto, se predispôs a decidir um cronograma do Impeachment, a dar prazos e estabelecer um rito procedimental. Tudo estava indo muito bem; impeachment sendo preparado para ser votado na Câmara dos Deputados; Dilma indo para o buraco; e, quanto a Cunha, era apenas questão de tempo. Para a agenda anticorrupção, tudo estava indo dentro dos conformes: menos dois políticos no mundo. Já para os articuladores do impeachment, este era o momento de estrategicamente separar os amigos dos inimigos.

A cartada do Golpe estava sendo orquestrada em outro nível. Eduardo Cunha tentava manter a base do PMDB ao seu lado. Neste momento, Leonardo Picciani, seu aliado, líder do PMDB na Câmara, era essencial para isto, mas nos últimos tempos vinha fazendo uma ponta para o governo de Dilma. O clima dentro do PMDB era de instabilidade e racha. Cunha sofria um risco muito grande de ser traído por Piccianni, que estava demais envolvido com a base petista.

Foi assim que Eduardo Cunha combinou com Michel Temer a famosa carta para Dilma. Com este pequeno gesto, ele demonstrou que a guerra estava declarada e a cisão com o governo estava certa. Neste ponto, as ligações para os Deputados correram os gabinetes e Cunha e Temer precisavam saber quem estava de qual lado. A carta teve a função de determinar os polos para saber quem era aliado e quem era oposição.

Foi uma declaração clara de Guerra. A carta não era somente uma mensagem para Dilma, mas era uma mensagem implícita para os deputados: quem não está com Temer e Cunha está ao lado do inimigo. Nesse jogo político, Piccianni precisou escolher rapidamente de que lado estava, e, tal como líder do governo na Câmara, preferiu ficar ao lado do presidente do partido, Michel Temer, e ao lado do articulador maior, Eduardo Cunha, seu mestre.

Em dezembro, algumas tramitações sobre o impeachment ganhavam encaminhamento. Os ritos foram determinados, mas o jogo continuou em frente, sem um questionamento maior.

[JANEIRO DE 2016]

Brasil fechado para balanço.

[FEVEREIRO DE 2016]

Fevereiro começou quente com a notícia de que Lula estava sendo investigado por suposta venda de MPs. Este foi o estopim para uma caça a Lula e, logo, a associação indireta ao governo Dilma. Os jornais continuaram a publicar todas as pautas que incriminavam Lula, Dilma, Marqueteiros do PT ou aliados.

No dia 18 de fevereiro, o STF deu a fatídica decisão, de proporções monumentais, em absoluta discordância com a Constituição. Agora, para ser preso, basta uma condenação em segundo grau para ser preso, uma vez que não há mais necessidade de trânsito em julgado. Tudo isto, veja, "preparando a cama" para os políticos e empresários da Lava-Jato.

O recado do STF foi claro: sinalizou que não perdoaria ninguém e quem desafiasse a "Justiça" "tomaria ferro". Isto apavorou ainda mais os políticos, dado que nem o próprio Supremo já não mais se importava em violar a Constituição para satisfazer os anseios punitivos da população.

[MARÇO DE 2016]

5 de Março. A disputa para que Lula continue na pauta midiática ganha capítulo na Lava-Jato, pelas mãos do Juiz Sérgio Moro. A Polícia Federal, com ordens do juiz, cria um espetáculo e leva o ex-presidente para depor coercitivamente, mesmo que este tivesse afirmado que compareceria de forma espontânea.

Flashes e câmeras. Tudo foi tumultuado, houve muito barulho. A cada golpe tomado, Lula tentava aparentar cada vez mais forte.

Alguns dias depois, promotores de São Paulo denunciam Lula no caso Triplex do Guarujá e pedem a prisão do Ex-Presidente. A denúncia e o pedido de prisão do Ministério Público viraram chacota no cenário jurídico, visto a falta de impropriedade e técnica. O Judiciário e o MP estavam em polvorosa atrás de algo que "colasse". Lula continuava apanhando e Dilma sentia o efeito de rebote, por ter sua imagem associada ao ex-presidente.

Nesse meio tempo, Delcídio do Amaral, delator na Lava Jato, dizia que Dilma tentava se utilizar de Mercadante para sabotar a operação. A presidência, diante de uma grande crise política, resolveu fazer uma jogada dupla. A solução para melhorar a articulação na esfera política seria colocar Lula como ministro e, ao mesmo tempo, tirá-lo das mãos do juiz Sérgio Moro pelo foro privilegiado.

Dia 16 de Março. Dia histórico. Uma sucessão de eventos amplificou a crise e a conjuntura favorável ao impeachment. Pela manhã, Lula aceitou o convite de Dilma para ser o novo ministro-chefe da Casa Civil. À tarde, por volta das 13h45, Lula foi anunciado oficialmente, por meio de uma nota, que assumiria o cargo. Logo em seguida, a oposição anunciou que iria à Justiça contra a nomeação.

No começo da noite, antes de começar o Jornal Nacional, Moro derruba, ilegalmente, o sigilo de um grampo telefônico e divulga uma conversa entre Lula e Dilma. O resultado? Manifestações e panelaços imediatos em diversas cidades. A justificativa do juiz foi: "A democracia em uma sociedade livre exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras." Muito política, nada jurídica.

Com essa jogada, um juiz saiu de sua esfera natural de poder para participar do game do impeachment. A estratégia de Lula e Dilma não teve seguimento, e os acontecimentos desse dia pioraram ainda mais a articulação política do governo. Lula sequer conseguiu assumir a Chefia da Casa Civil. Sérgio Moro, naquele momento, apenas tomou uma bronca do STF. Depois de seu ato, sumiu da mídia por um tempo – pelo jeito se arriscou demais, colocou a carreira em jogo e caiu na real.

Um detalhe: o áudio vazado ilegalmente, motivo de Jornal Nacional especial, com direito a teatro do apresentador William Bonner, foi anulado no começo de junho pelo Ministro Teori Zavascki do STF, o qual considerou a escuta como ilegal, por não haver ordem judicial vigente no momento.

Apesar de anulado, esse áudio foi decisivo para assegurar a opinião pública majoritária de que o impeachment era a melhor saída para o Brasil. Tudo ficou mais fácil para os caminhos do impeachment.

Entretanto, é curioso que, neste mês de Junho, o Ministro Teori, o mesmo que deu uma bronca em Moro por ter sido parcial e violado a sua função de juiz, mandou novamente o acusado Lula para ser julgado pelo Juiz carrasco que montou todo o circo midiático. Convenhamos: Moro é, no mínimo, suspeito para julgar o Lula. Não há imparcialidade alguma em sua justiça.

[ABRIL DE 2016]

A segunda metade do mês de março, até a metade de abril, foram marcadas por disputas de mídia, cálculos de quem votaria a favor e contra o impeachment e inúmeras pesquisas de opinião apresentando porcentagens da população sendo favoráveis ao impedimento da presidente. Manifestações de rua enormes e muita expectativa.

Enquanto isto, no dia 17 de Abril, Dilma perdia no STF seu recurso contra a abertura do Impeachment. Dessa vez, o STF dizia seu segundo AMÉM. Desta vez, sacramentava sua posição até com ironias, feitas pelo próprio ministro da Corte Gilmar Mendes, que disse: "Ah, eles podem recorrer para o céu, ao papa, ao diabo". O Impeachment seria votado na Câmara nos próximos dias.

Dia 18 de Abril. O Impeachment é votado em uma solenidade patética – aposto que todos se lembram desse dia. Foi marcante, pois, nos dias que seguiram, até quem era favorável ao impeachment ficou assustado com os argumentos e com a postura dos Deputados. De alguma forma, as pessoas tomaram um primeiro choque de realidade nesse episódio.

Depois disso, o governo Dilma ampliou sua ofensiva através da mídia internacional. Não havia chance alguma ao governo dentro do discurso hegemônico – oposicionista – da mídia brasileira.

A tese do golpe tomou projeção internacional e contou com a defesa de diversos intelectuais, o que acabou por garantir o peso necessário para Dilma continuar lutando. A mídia nacional ficou levemente acuada e tentou abafar por um tempo a projeção negativa que acontecia lá fora. Não adiantou. Dilma já estava falando sobre isto, mesmo que discretamente, na ONU.

[MAIO DE 2016]

3 de maio. Michel Temer perde o prazo para recorrer da condenação do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) por doação irregular de campanha e está inelegível para as eleições de 2018. Torna-se um personagem que não possui compromisso nem com o voto não conquistado, nem com as próximas eleições, as quais não poderá se eleger. Este é um homem desimpedido para qualquer arbitrariedade política.

6 de Maio. Eduardo Cunha é afastado da Presidência da Câmara dos Deputados por unanimidade no STF. Apesar da decisão, a Corte demorou meses para tomá-la, em contraponto às decisões instantâneas anti-Governo. O balanço entre ação e inação do STF contribuiu diretamente para o golpe.

Afastado, agora Eduardo Cunha poderia contar apenas com a sua influência de bastidores, dossiês, ameaças e Michel Temer. Para ele, apesar de mais acuado, o jogo continua com as escolhas dos Ministérios de Temer e com pressões para a próxima votação no Senado.

No dia 12 de maio, o impeachment no Senado foi votado e, Dilma, afastada por até 180 dias. Por 55 votos a 22, o processo foi aberto com maioria simples, ou seja, mais da metade dos senadores votaram pelo afastamneto da presidente.

13 de Maio. Temer assume e é Presidente interino do Brasil. Ele fala em governo de salvação nacional, convoca um Ministério completamente masculino, extingue ministérios importantes nas áreas sociais e formaliza um casamento com o PSDB, entregando pastas importantes em nome da governabilidade.

31 de Maio. Temer já havia perdido 2 ministros em 19 dias de governo. Seu governo estava em cheque, e, o argumento de que havia um golpe, mais forte do que nunca. A guerra da comunicação é cotidiana: as redes sociais tentam equilibrar e resistir ao discurso hegemônico da mídia. A hashtag #ForaTemer é o novo bom dia.

[JUNHO de 2016]

8 de Junho. Vaza pedido de prisão feito pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, em que pede ao STF a prisão de Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Romero Jucá e José Sarney. O STF está com uma bomba em suas mãos. Gilmar Mendes diz que esse vazamento é uma forma de pressionar o Supremo. Todos os players estão acuados, a República está armada; Executivo, Legislativo e Judiciário em conflito.

12 de Junho. Após um mês de gestão interina, Michel Temer faz um balanço: "É uma Guerra". O presidente interino já não consegue disfarçar mais sua calma. Sob pressão de amigos e inimigos, trocou o seu estilo reservado e paciente por desabafos constantes e manifestações de irritação.

Será que Temer conseguirá se sustentar e fazer passar o impeachment da Presidente Dilma? Na votação do Senado, não se requere a maioria simples, mas dois terços da Casa. Ou seja, para virar o jogo é preciso que Dilma consiga reverter apenas dois votos. O jogo de bastidores continua sendo jogado. Todos acuados, armados até os dentes e com o placar completamente indefinido.

Segunda-feira, 20 de junho de 2016
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