Que herói é esse, cuja façanha é matar um menino?
Segunda-feira, 27 de junho de 2016

Que herói é esse, cuja façanha é matar um menino?

Mais duas mortes, na periferia distante de São Paulo. Um menino de quinze e outro de onze foram mortos pela polícia militar e pela guarda civil metropolitana. Ao que se sabe, foram duas ocorrências envolvendo furto de veículos, em um deles, o adolescente caiu em um córrego com o carro e foi baleado na cabeça, quando tentava sair pelo vidro; no outro, a criança estava em companhia de adolescentes, que, fugindo, conseguiram manter-se vivos, ao menos pelas próximas horas. Juntaram-se à morte de Ítalo; em poucos dias, três crianças paupérrimas foram mortas por integrantes de forças de segurança, policiais armados até os dentes, que saem pelas ruas, a procurar os inimigos, na Guerra Contra O Crime. Saem de seus quartéis para caçar, saem todos os dias com uma dívida de sangue que devem resgatar. 

A profissão pode nos fazer insensíveis. Lembro-me, hoje, com uma ponta de horror, que, nos dias do júri, pedíamos lanches que comíamos sobre fotos de pessoas mortas, chacinadas; discutíamos, durante a refeição, detalhes mórbidos de depoimentos, de laudos, como se aquelas mortes na mesa não fossem nada além de papéis jogados. Tínhamos uma insensibilidade que diria profissional e nenhum de nós parecia incomodar-se com aquele pano de fundo macabro. Ninguém sentia ponta de enjoo, nada. Comíamos sobre mortos e saíamos para o júri a discutir juridicamente suas mortes. Depois dos julgamentos, cada qual contava suas vantagens e gestos pirotécnicos, ridículos ou geniais. 

Nessa insensibilidade que se transformava em uma verruga de alma, não nos perguntávamos, decerto por um indefinível e paralisante medo, qual, enfim, seria a sensação de provocar a morte de outra pessoa. Escandalizamo-nos com a morte de um cão ou de uma onça, diante do retrato vívido da insensibilidade de quem mata um animal que jamais nos causaria mal algum, desde que fosse respeitado em sua natureza. E, como seria se um deus, que encerra, abrevia, por sua vontade irrecorrível, a vida de outro, mas humano, tão humano quanto ele. Como seria, por exemplo, integrar um pelotão de fuzilamento e matar alguém amarrado, vendado e desarmado? 

Como seria sair de casa pela manhã, beijar os filhos, beijar alguém que ficasse esperando, afagasse o cão, passasse pelo vizinho, cumprimentasse o vizinho, comentasse com ele a rodada, sair para rua, bater o ponto, verificar as últimas instruções e, dali a alguma horas, atirar contra a nuca de uma criança? Como seria retornar para casa e ver o filho da idade do menino que se acabou de assassinar? Como seria guardar para si a mentira de uma legítima defesa, real ou putativa, própria ou de terceiro, como seria dizer que o tiro certeiro na nuca houvesse sido acidental? Como seria acordar no dia seguinte, sabendo que, no dia anterior, uma bala explodira o crânio de uma criança e que essa bala houvesse saído da arma que empunhava? Como justificar empunhar-se uma arma para uma criança de onze anos?  

Diziam-nos os matadores profissionais que somente um monstro aceitaria matar uma criança. Todos podemos cruzar uma bala na vida, sabemos disso, sabemos até que essa bala pode não ter nossa direção e sentido e que pudesse estar, como disse João Cabral de Mello Neto, voando desocupada. Mas, como seria visar e mirar uma criança, firmar o pulso, puxar o gatilho, atingir-lhe a nuca e recolher o corpo inerte? Sentiria algum tremor nas mãos? Sentiria um micrométrico arrependimento? Como encarar como inimiga uma criança de onze, uma criança de dez, uma criança de quinze anos?

As semanas se seguiriam. Os meses se seguiriam. Os anos. Aquele assassinato, não: permaneceria congelado no tempo e na memória? Ou, na frieza e insensibilidade moral que calejassem a mente e o corpo, sumiria na desmemória, esmaecendo feito foto antiga de criança andando de triciclo?

Como é agir feito uma fera predadora, que procura saciar sua fome com a carne das presas infantis? Como seria ser glorificado pela morte de uma criança? Que herói é esse, cuja façanha é matar um menino? 

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Segunda-feira, 27 de junho de 2016
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