Discurso de ódio e sistema penal de Salah H. Khaled Jr.
Quinta-feira, 7 de julho de 2016

Discurso de ódio e sistema penal de Salah H. Khaled Jr.

O ódio surge em nossa época como uma espécie de emoção comum. Quando dizemos que ele é um afeto, queremos dizer que toca a todos, que está ao alcance de qualquer um. É das emoções que sejam compartilhadas, capazes de contagiar a muita gente. Somos condicionados a pensar que o ódio seja assim, algo próprio e, portanto, natural, que nasce na intimidade de alguém como algo inevitável. Na mesma linha, costumamos contrapor ao ódio ao amor pensando que ele também é natural. E esse é o começo dos erros que cometemos em nome desses afetos. Porque, ao tê-los como naturais, eles nos tornam cegos e, no limite, autoritários.

Publicado originalmente na Revista Cult

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O ódio que cada um sente, dá a sensação de uma verdade alcançada e inquestionável em relação ao objeto do ódio. A sensação de autoridade que o ódio produz é impagável. Ela faz alguém se sentir grandioso, superior ao que se odeia. É essa compensação imediata que se alcança pelo ódio, o que o amor nem sempre fornece. Por que o amor é uma emoção que se dá em outro tempo. Ele é lento quando comparado ao ódio. Para quem odeia, o ódio é experimentado como uma coisa boa. Além de tudo, aquele que sente ódio se sente como uma autoridade, justamente porque o ódio, como qualquer afeto, parece evidenciar verdades. O perigo está em que o ódio não é apenas sentido em relação a algo que se revela odiável, mas o ódio pode ser produzido na direção de um objeto que não se imaginou odiar antes. Podemos assim estimular o ódio, o nosso próprio e o dos outros, e procurar o que odiar depois. Do mesmo modo, podemos fazer com o amor. Não dizemos que há pessoas cheias de amor para dar? Ora, os afetos são energias psíquicas que surgem de tempos em tempos para manter tudo como está ou para causar transformações.

O ódio pode ser contraposto ao amor apenas genericamente. O que os dois afetos nada simples tem em comum é que podem ser manipulados sem muita dificuldade. Diremos que o amor é construtivo e o ódio é destrutivo, mas ambos são afetos criados, inventados, fomentados por um mecanismo poderoso, o discurso que pode ser imagético ou verbal. Assim, o ódio se faz discurso, mas apenas quando a ordem do discurso usa o ódio, assim como pode, em outro momento, usar o amor para os fins aos quais serve. Na sociedade do espetáculo, a manipulação do ódio se dá pelos meios de comunicação de massa.

Nesse contexto de imaginação manipulada e controlada, o que ninguém percebe é que o ódio que transita não lhe pertence. Assim como as pessoas vivem a repetir ideias prontas que não são suas, que são impensadas, do mesmo modo, reproduzem afetos que não são seus. O vazio afetivo é vivido com emoções alheias, com mercadorias emocionais, daí o verdadeiro culto de emoções que vemos em estádios de futebol, em igrejas, diante das televisões e até mesmo nas ruas. O vazio emotivo, efeito de subjetividades canceladas, é vivido como anestesia insuportável. Muitas pessoas encontram o ódio nesse momento e sentem, por meio dele, uma específica sensação de força e poder. Ligado àquela sensação de autoridade, o ódio faz um sucesso impressionante nas instituições que controlam o poder.

É nesse momento que o ódio se liga ao poder penal, tema desse instigante livro de Salah H. Khaled Jr. O ódio é o que leva qualquer um à sensação da autoridade, em nossa sociedade, ele se expressa no lugar imaginário de promotor e juiz vivido por cidadãos comuns. Julgamentos e condenações são banalizados e surgem como entretenimento e até mesmo como diversão para aqueles que vivem no regime afetivo do ódio manipulado, alienados de outros afetos. O ódio é um regime afetivo e também ético-político, que causa efeitos concretos na sociedade. Em sua aliança com o poder penal, o ódio nos faz construir um outro, o criminoso como um outro. É nessa sociedade que a corrupção se torna uma espécie de “crime do outro”, como o mal a ser exorcizado.

Cegos de ódio, cidadãos comuns tornam-se incapazes de fazer perguntas. E, sobretudo, a pergunta essencial sobre o modo como se tornaram cegos. O livro de Salah Khaled nos leva de volta à dúvida amorosa e à inteligência dos afetos tão em baixa nesse momento.

Marcia Tiburi é Graduada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, graduação em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com ênfase em Filosofia Contemporânea. Pós-doutorado em Artes pelo Instituto de Artes da UNICAMP. É professora da Pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Quinta-feira, 7 de julho de 2016
Discurso de ódio e sistema penal de Salah H. Khaled Jr.
Quinta-feira, 7 de julho de 2016

Discurso de ódio e sistema penal de Salah H. Khaled Jr.

O ódio surge em nossa época como uma espécie de emoção comum. Quando dizemos que ele é um afeto, queremos dizer que toca a todos, que está ao alcance de qualquer um. É das emoções que sejam compartilhadas, capazes de contagiar a muita gente. Somos condicionados a pensar que o ódio seja assim, algo próprio e, portanto, natural, que nasce na intimidade de alguém como algo inevitável. Na mesma linha, costumamos contrapor ao ódio ao amor pensando que ele também é natural. E esse é o começo dos erros que cometemos em nome desses afetos. Porque, ao tê-los como naturais, eles nos tornam cegos e, no limite, autoritários.

O ódio que cada um sente, dá a sensação de uma verdade alcançada e inquestionável em relação ao objeto do ódio. A sensação de autoridade que o ódio produz é impagável. Ela faz alguém se sentir grandioso, superior ao que se odeia. É essa compensação imediata que se alcança pelo ódio, o que o amor nem sempre fornece. Por que o amor é uma emoção que se dá em outro tempo. Ele é lento quando comparado ao ódio. Para quem odeia, o ódio é experimentado como uma coisa boa. Além de tudo, aquele que sente ódio se sente como uma autoridade, justamente porque o ódio, como qualquer afeto, parece evidenciar verdades. O perigo está em que o ódio não é apenas sentido em relação a algo que se revela odiável, mas o ódio pode ser produzido na direção de um objeto que não se imaginou odiar antes. Podemos assim estimular o ódio, o nosso próprio e o dos outros, e procurar o que odiar depois. Do mesmo modo, podemos fazer com o amor. Não dizemos que há pessoas cheias de amor para dar? Ora, os afetos são energias psíquicas que surgem de tempos em tempos para manter tudo como está ou para causar transformações.

O ódio pode ser contraposto ao amor apenas genericamente. O que os dois afetos nada simples tem em comum é que podem ser manipulados sem muita dificuldade. Diremos que o amor é construtivo e o ódio é destrutivo, mas ambos são afetos criados, inventados, fomentados por um mecanismo poderoso, o discurso que pode ser imagético ou verbal. Assim, o ódio se faz discurso, mas apenas quando a ordem do discurso usa o ódio, assim como pode, em outro momento, usar o amor para os fins aos quais serve. Na sociedade do espetáculo, a manipulação do ódio se dá pelos meios de comunicação de massa.

Nesse contexto de imaginação manipulada e controlada, o que ninguém percebe é que o ódio que transita não lhe pertence. Assim como as pessoas vivem a repetir ideias prontas que não são suas, que são impensadas, do mesmo modo, reproduzem afetos que não são seus. O vazio afetivo é vivido com emoções alheias, com mercadorias emocionais, daí o verdadeiro culto de emoções que vemos em estádios de futebol, em igrejas, diante das televisões e até mesmo nas ruas. O vazio emotivo, efeito de subjetividades canceladas, é vivido como anestesia insuportável. Muitas pessoas encontram o ódio nesse momento e sentem, por meio dele, uma específica sensação de força e poder. Ligado àquela sensação de autoridade, o ódio faz um sucesso impressionante nas instituições que controlam o poder.

É nesse momento que o ódio se liga ao poder penal, tema desse instigante livro de Salah H. Khaled Jr. O ódio é o que leva qualquer um à sensação da autoridade, em nossa sociedade, ele se expressa no lugar imaginário de promotor e juiz vivido por cidadãos comuns. Julgamentos e condenações são banalizados e surgem como entretenimento e até mesmo como diversão para aqueles que vivem no regime afetivo do ódio manipulado, alienados de outros afetos. O ódio é um regime afetivo e também ético-político, que causa efeitos concretos na sociedade. Em sua aliança com o poder penal, o ódio nos faz construir um outro, o criminoso como um outro. É nessa sociedade que a corrupção se torna uma espécie de “crime do outro”, como o mal a ser exorcizado.

Cegos de ódio, cidadãos comuns tornam-se incapazes de fazer perguntas. E, sobretudo, a pergunta essencial sobre o modo como se tornaram cegos. O livro de Salah Khaled nos leva de volta à dúvida amorosa e à inteligência dos afetos tão em baixa nesse momento.

Marcia Tiburi é Graduada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, graduação em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com ênfase em Filosofia Contemporânea. Pós-doutorado em Artes pelo Instituto de Artes da UNICAMP. É professora da Pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
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