A especulação imobiliária de Geddel e a lógica da cidade do capital
Quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A especulação imobiliária de Geddel e a lógica da cidade do capital

Em meados de 2015, os salões da Casa das Onze Janelas, em Belém, foram ocupados por várias exposições fotográficas agraciadas pelo Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, um dos mais importantes da área. Entre elas, destacava-se a do artista paraense Marcílio Costa, cujo objetivo era o de retratar os impactos do capital especulativo e imobiliário na paisagem urbana, enfatizando os  efeitos da verticalização nos centros históricos da capital do Pará. A obra, chamada “Empalamento”, traz comoventes imagens de arranha-céus sobrepostos a imóveis antigos, penetrando-os de forma impiedosa e ao completo arrepio de seu valor histórico.

O episódio envolvendo o assédio do ex-ministro Geddel Vieira Lima sobre o também ex-ministro Marcelo Calero para engabelar um parecer técnico do IPHAN que, por sua vez, limitou o número de andares de um edifício situado em uma região de reconhecido valor histórico de Salvador revela muito mais que a forte permanência da tradição patrimonialista em nossa política – visto que Geddel, que comprou na planta um apartamento milionário situado entre os andares embargados, agiu tanto em interesse pessoal como da construtora  -, conferindo-nos um pedagógico exemplo de como a lógica do capital em sua perspectiva imobiliária funciona no sentido de empalar todo e qualquer bem coletivo que represente um entrave aos seus implacáveis objetivos predatórios.

Em seus manuscritos econômico-filosóficos, Marx conclui que a desvalorização do mundo humano aumenta na proporção direta em que se valoriza o mundo das coisas. O crescimento da especulação imobiliária, que se comporta como um rolo compressor em sua relação com toda a sorte de bens históricos, culturais, urbanos, paisagísticos e ambientais que se coloquem na frente de seus interesses empresariais, representa a degeneração das relações humanas no seio das cidades, recolhidas a ambientes normatizados e particulares concebidos estruturalmente segundo a narrativa do consumo ao passo que espaços públicos seguem abandonados e cada vez mais ausentes da tradicional característica de local de encontro, convivência, aprofundamento e reafirmação de laços de natureza comunitária.

Na existência intermediada pelo consumo, pouco interessa se há direitos a serem respeitados, já que o fio condutor do reconhecimento da cidadania passa invariavelmente pela capacidade de consumir, diferentemente do que acontece nas praças, ruas e parques, onde a única credencial necessária para o seu uso é tão somente o direito de ir e vir.

O esfacelamento dos laços comunitários é a mais categórica expressão de cidades dominadas pela especulação, subjugadas ao ímpeto ensandecido de empreiteiras e imobiliárias que, no afã de convencerem que são as porta-vozes do progresso, costumam sacar do bolso a retórica multiuso da “geração de emprego e renda”, geralmente utilizada para justificar o indefensável impacto negativo de grandes obras em bens urbanísticos e ambientais cujo caráter de propriedade coletiva não se encaixa nos valores egoísticos e individualistas da vida imposta e sitiada por enormes muros, cercas elétricas e vigilâncias 24 horas.

O fato de um ministro de Estado atuar desavergonhadamente como preposto de grupos empresariais escancara o já conhecido sequestro de nossas instituições por interesses nada republicanos, plenamente incompatíveis com as noções de bem comum consubstanciadas em valores comunitários.

Ao pôr interesses privados à frente do patrimônio histórico e urbanístico protegido pelo IPHAN e pela legislação pertinente, Geddel faz às vezes de lobista também de um modelo de cidade que é consectário de toda a podridão antidemocrática de uma dinâmica que não vê problemas em usurpar a soberania de nações inteiras em prol de sua mesquinhez, cujo propósito, nos microuniversos urbanos, é o de empalar a cidade como condutora da vida social por meio do crescente esvaziamento do sentimento coletivo de apropriação da vida social e urbana.

O resultado desse processo é exatamente uma maior atomização condominial da vida, cinzenta e alienada  do mundo a sua volta. Calero, além de expor a já conhecida pequenez de Temer e de sua alta vassalagem, nos fez, mesmo que involuntariamente, ter uma ideia de como a roda funciona no submundo das licenças para a construção de imóveis de luxo, confirmando que a cidade continua sendo, como sempre foi, o definitivo palco da luta de classes.

Gustavo Henrique Freire Barbosa é advogado membro da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares, Gustavo Henrique Freire Barbosa

Quarta-feira, 30 de novembro de 2016
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