O cidadão de bem, a chacina de Campinas e a morte de Luiz Carlos Ruas
Terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O cidadão de bem, a chacina de Campinas e a morte de Luiz Carlos Ruas

Na obra “Como conversar com um fascista”, Márcia Tiburi, discorre sobre os efeitos da propaganda do ódio responsável por propagar intolerâncias e, com assustadora naturalidade, afirmar coisas estarrecedoras com alto teor performativo capazes de provocar efeitos, orientar ações e legitimar desumanizações. Tiburi esclarece que a propaganda da qual trata não corresponde ao sentido de campanha publicitária, mas sim da discursividade entranhada nas falas mais comuns e cotidianas, condicionadas por valores que, ao estilo da novilíngua Orwelliana, acabam por restringir o uso emancipatório da própria linguagem.

Não foi à toa que Roland Barthes foi incisivo ao concluir que “a língua não é nem reacionária nem progressista; ela é pura e simplesmente fascista”, uma vez que “o fascismo não consiste em impedir de dizer, mas em obrigar a dizer”. Sem que se tenha consciência de sua existência, o sistema de valores hegemônicos mantém, assim, a própria palavra em cativeiro, restringindo possibilidades mais inclusivas de expressão bem como mais correspondentes com a dignidade humana e o caráter plural das mais diversas sociedades. Não por menos, Barthes sustenta que a luta antagônica entre poder coletivo e contrapoder revolucionário também acontece na linguagem, dando a entender que é no seio desta onde se encontra a verdadeira raiz do antagonismo político.

Os episódios recentes da chacina misógina de Campinas e do assassinato do ambulante Luiz Carlos Ruas demonstram como a linguagem costuma legitimar a prática. Afora a atmosfera machista, misógina e homofóbica – substanciada nas formas hegemônicas de consciência social apontadas por Barthes – que fecha os horizontes reflexivos ao retirar ou diminuir constrangimentos e obstáculos morais para o ato de ceifar vidas em razão das condições de sexo, gênero e orientação sexual, em ambas as situações os apontados como autores dos crimes se manifestaram categoricamente no sentido de se enxergarem piamente como membros eméritos da categoria difusa de “cidadãos de bem”. Na primeira situação, houve a premeditação dos assassinatos em uma carta onde o sujeito faz uma série de referências a todo o pacote de valores atribuído a esta categoria; nela, define-se como o trabalhador honesto averso à corrupção, pai de família pagador de impostos, defensor dos valores da família tradicional e opositor dos “direitos humanos” e do “sistema feminista”, chegando a utilizar o epíteto “vadias” para se referir às suas diretas, indiretas, efetivas e potenciais vítimas – nem a ex-presidenta Dilma Rousseff escapou de sua misoginia neurótica -, além de apontar a Lei Maria da Penha como “lei vadia da penha”, ainda que na mesma missiva afirme não se considerar machista.

No caso de Luiz Carlos Ruas, espancado até a morte por ter saído em defesa de travestis, um dos acusados afirmou estar arrependido, concluindo não ser uma má pessoa, mas um “cidadão de bem” tal qual sua vítima, que no momento se encontrava trabalhando.

Some-se isto aos que estão comemorando e relativizando o banho de sangue ocorrido na rebelião do Complexo Penitenciário Anísio Jobim em Manaus, cujo saldo de cadáveres já se aproxima da sexta dezena, e eis a mais completa radiografia da alma do “cidadão de bem” e de todo o complexo de valores que serviram de arcabouço moral legitimador para todas as mortes acima.

Estes episódios são apenas a expressão prática, extrema e obscenamente corriqueira do mal que as pessoas de modo geral – e em especial os autoproclamados “cidadãos de bem” – costumam difundir sob a singela e despretensiosa forma de “opinião”. Nesse sentido, Tiburi questiona: quais as condições culturais que possibilitam o surgimento de falas que reproduzem o ódio e incitam e comemoram matanças? Como alguém se autoriza ao discurso fascista e, principalmente, como alguém dele é convencido? A alienação social por meio da linguagem abre caminhos para um quadro onde a desumanização passa cada vez mais a fazer parte da paisagem social, e se a palavra perdida cria a bala perdida, com bem salientou Christian Dunker, nada impede que um dia esta bala se volte exatamente contra quem a atirou.

Gustavo Freire Barbosa é advogado e professor.

Terça-feira, 3 de janeiro de 2017
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