Vapores de Bauman
Terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Vapores de Bauman

A modernidade é que é líquida?
Ou são os homens,
Que a liquidam?

O tempo é que é líquido?
Ou são os homens,
Que o aniquilam?

(Incertezas Navegantes – Guilherme Missali)

Não foi por nenhuma obra “líquida” que conheci Bauman. Foi por um golpe de sorte – como se houvesse algo dessa natureza na vida real – e uma dose de coragem. Eis que um belo dia, na Livraria Cultura, resolvi dar uma olhada na fileira da estante dedicada a esse autor tão pop.

Como disse um amigo, meu medo sempre foi o de descobri-lo como um Romero Britto da sociologia. Romero Britto é artista? Claro que sim. Mas sua arte é da pior categoria possível. Pobre, sem técnica, sem expressão, sem mensagem, sem gosto.

Mas os quadros de Romero Britto eu já tinha visto, os livros de Bauman, porém, não tinha lido.

Sabia que meu preconceito poderia me custar caro. Depois de ver um professor basear uma aula inteira (o tema era criminologia urbana) no conceito de medo desenvolvido por Bauman, resolvi comprar um livro dele. Mas me recusei a ler um livro líquido. Odiava clichês, naquela época.

Comprei “Danos Colaterais” e desde então Bauman me conquistou. Minha postura com a sociologia mudou, minha escrita passou a mudar também e minha biblioteca ficou muito mais líquida.

Bauman escreve de forma simples e profunda, ao mesmo tempo, com o dom magistral de quem consegue transmitir ideias complexas com uma linguagem acessível. Essa foi a primeira impressão que tive lendo Danos Colaterais, em que Bauman coloca o seguinte problema: imagine um furacão muito destruidor (a.k.a. Katrina), ele atinge igualmente a pobres e ricos, certo? Sim, no mundo físico, a desgraça é a mesma para pobres e ricos, nesse mundo de desastres inesperados.

Mas no plano social os pobres são afetados pelos danos colaterais de uma desgraça democrática.

Ricos geralmente possuem imóveis e bens como opção – eles possuem recursos financeiros, investimentos no mercado de capitais, uma boa renda e contratos de seguro que os ajudam a recuperar a perda em tempo hábil para não atrapalhar a vida.

Os pobres, porém, não contam com nada disso. Perder a casa (hipotecada) para um pobre significa não apenas não ter onde morar, como ainda ter uma complicação com o banco. Sacar o dinheiro da aposentadoria dos fundos ou privados nem sempre é uma opção, sobretudo quando o investimento é inexpressivo.

E aí aparece a liquefação da modernidade, mais uma vez. Esse problema deveria ser – no mundo Moderno – um problema de Estado, um problema de seguridade pública.

No Estado Moderno, a securitização dos mais pobres é assunto público, que surge da formalização estatal de uma solidariedade já existente entre os cidadãos. Mas nos tempos líquidos, a solidariedade que garantia a coesão social é substituída por uma individualidade sacralizada pelo consumo e a securitização pública é privatizada em diversas indústrias muito lucrativas – mas inacessíveis aos mais pobres.

Assim, ser pobre implica, no plano social, arcar com danos colaterais mesmo de tragédias inevitáveis, que atingem a pobres e ricos (a princípio) de forma equivalente.

A sagacidade de Bauman foi perceber que não estamos verdadeiramente em tempos “pós” modernos, mas, de forma um tanto quanto próxima a Habermas, afirmas que estamos esgotando os ideais modernos, nesse processo que o pensador chamou de liquefação.

A análise de Bauman, porém, não fica restrita a grandes categorias abstratas – como o Estado, o espaço público, etc. – mas é refinada ao ponto de o autor conseguir apontar como nossas experiências individuais (amor, medo, família, educação, etc.) se veem também afetadas pelo individualismo crescente pelo qual pagamos altos preços.

No nosso campo – o Direito – as reflexões de Bauman ainda fazem pouco eco, perto do potencial crítico que pode gerar contribuições inesperadas.

Uma exceção a esse vácuo é a obra do sociólogo Pedro Scuro, que estudou e atuou com Bauman (o “Zyg”, de acordo com ele) durante seu exílio da nossa ditadura militar. Não apenas a produção teórica de Scuro, mas também sua atuação, seja na implementação de tentativas de justiça restaurativa, seja na parceria com a Transparência internacional, revelam não apenas um conhecimento profundo do mundo líquido em que atuamos no Direito, mas também o espírito crítico e transformador por entre as linhas do pensamento de Bauman.

Que nos fique por escola, sempre vivo, o pensamento de Bauman.

Pedro da Conceição é Mestrando em Direito pela Universidade de São Paulo, advogado. Autor do livro “Mito e Razão no Direito Penal” (2012). Filósofo nas horas vagas.

Terça-feira, 10 de janeiro de 2017
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