A quem serve a modernidade líquida de Bauman?
Quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A quem serve a modernidade líquida de Bauman?

Foto: Monumento Mínimo, intervenção urbana de Néle Azevedo

No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels (2007) afirmam que “tudo que era estável e sólido se desmancha no ar” ao demonstrar que a solidez de uma era dá lugar a novas condições de existência e relações recíprocas em consequência de um movimento dialeticamente revolucionário. A burguesia, como classe revolucionária, não apenas revoluciona o modo de produção, mas também as relações sociais. Sua capacidade de imprimir constantes transformações abala a estabilidade e solidez anteriores, imprime constantes transformações e submete os seres humanos a um tempo transformações e profanações. A negação da ordem anterior abre-se a uma nova ordem de negação da negação. Todas as cadeias que precisavam ser despedaçadas, foram despedaçadas; tudo o que era estável e sólido se esfumou para dar lugar a uma nova sociabilidade. Na perspectiva de Zygmunt Bauman a revolucionada modernidade é líquida, efêmera e irreal. Qualquer tentativa de sua superação será pior, um autêntico pastiche.

Em sua obra Modernidade Líquida (2001), Bauman, filósofo polonês recém falecido, atribuiu à modernidade contemporânea, à pós-modernidade, a mesma plasticidade dos líquidos. Ela é “leve, líquida e mais dinâmica que a modernidade ‘sólida’ que suplantou”, flui, vaza, transborda, penetra lugares, contorna o todo e todos, tal como as ondas do mar. O indivíduo flui ao seu sabor e, ainda que podendo ser responsabilizado por suas ações e reações, é livre para questionar e refletir, reclamar e reivindicar. Seu horizonte é repleto de incontáveis oportunidades e realizações; é ele que escolhe os seus caminhos sem se preocupar com normas pré-estabelecidas, com as metalinguagens, com os governos e líderes. O seu individualismo atinge a sua maior intensidade, particularmente quando acompanhado das competências de saber ser, estar, aprender e conviver, inclusive em ambientes virtuais complexos, emaranhados e fluidos. Como indivíduo multifuncional está livre para buscar a sua autorrealização sem ser tolhida por qualquer Grande Irmão orwelliano. Todos devem ser igualmente livres para sentir, escolher, consumir e mover-se sem manipulações e frustrações. A fluidez do atual modo de produção, desse capitalismo tardio, não obstante os seus graus de negatividade, permite que o indivíduo se capacite, potencialize e consiga com eficiência a sua autorrealização. As possíveis frustrações decorrem da multiplicidade de escolhas, possibilidades, caminhos e horizontes; os bons exemplos podem atenuá-las.

Não há, porém, lugares para os planos de longo prazo. A modernidade líquida se move com rapidez, as persistências se derretem e, como diz Sennett (2000), até o caráter se deixa corroer. Os compromissos perdem força. A mobilidade no mundo do trabalho leva à perda de laços de amizade. As histórias se constroem a cada novo posto de trabalho. Os colegas de trabalho são igualmente colaboradores com pequenos laços de comprometimento com a empresa. A lealdade da modernidade sólida gera desconfianças nos locais de trabalho. Nestes tempos a flexibilidade dos contratos de trabalho ocasiona satisfações instantâneas como forma de superação das inseguranças. É um tempo de carpe diem; pode ser que amanhã tudo já seja tarde. O termo cloakroom, usado por Bauman, contém a ideia de indivíduos se fantasiando e assumindo comportamentos que variam conforme as ocasiões espetaculares e durante os seus tempos de ocorrência, apesar dos riscos de solidão.

Bauman nos deixa em um mês de janeiro abrasador e sem transparecer o que nos espera de positivo após a derrubada de uma Presidente legitimamente eleita, com mais de 54 milhões de votos. Seu legado é uma interpretação bastante peculiar do mundo e serve para inclui-lo entre os todos outros grandes filósofos que interpretaram o mundo. Da mesma forma que outros criticou a razão, o Estado e a organização social da modernidade e lhes atribuiu graus de domesticação dos homens e dos seus instintos e criatividade. Tal legado, contudo, segue o mesmo curso de tantos outros que, como disse Perry Anderson (1999), também se “tornou apanágio da direita, do conservadorismo”, [admitindo que] não podia haver nada mais que o capitalismo”. Para Anderson, aliás, o pós-modernismo não vai além de “uma sentença contra as ilusões alternativas”. Uma sentença igualmente imobilizante, que gera vazios, ausências e alheamentos e é  incapaz de responder a questão relevante já levantada por Japiassu (2001): “a quem compete a responsabilidade de pensar a sociedade mundial que se encontra em gestação? ”

O velho Marx de fato estava certo. Não basta interpretar o mundo de maneiras diferentes. Deixar de pensar as formas de transformá-lo pode tão somente gerar conformações e conformismos. Afinal de contas, as performances momentâneas e passageiras da pós-modernidade raramente vão além do espetáculo inócuo. Tudo se mantém liquido servindo ideologicamente à reestruturação produtiva do capitalismo tardio.

Zacarias Gama é Professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, membro do corpo docente da Faculdade de Educação e Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação. Integrante do Comitê Gestor do Laboratório de Políticas Públicas/UERJ.

Quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
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