Favorito à presidência no Senado, Eunício Oliveira emplacou cargos no Judiciário
Quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Favorito à presidência no Senado, Eunício Oliveira emplacou cargos no Judiciário

O senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) é o favorito para assumir a presidência no Senado, no processo que começa nesta quarta-feira (1), tendo como único adversário o senador José Medeiros (PSD-MT). O empresário e agropecuarista foi eleito deputado Federal para três mandatos consecutivos (1997-2011), e é conhecido por transitar com facilidade por diversas áreas, além de ter tido boa relação com a ex-presidente Dilma e ser destaque no governo Lula, no Ministério das Comunicações.

Nos últimos meses, no entanto, o nome do senador vem repercutindo após ter sido citado em ao menos duas delações premiadas da Operação Lava Jato. Na primeira delação, o diretor da Hypermarcas, Nelson José de Mello, afirmou ter repassado R$ 5 milhões à campanha de Eunício para governador do Ceará em 2014 por meio de contratos fictícios. No período de 2010 e 2014, segundo a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o patrimônio do senador triplicou, passando de R$ 36,7 milhões para R$ 99 milhões. 

Já na delação do diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, Cláudio Melo Filho contou que a empresa negociava os recursos com políticos em troca de apoio e que, durante as negociações para a aprovação da MP 613, Eunício ficou com R$ 2,1 milhões.

 

O peemedebista é apontado como o segundo senador mais rico no exercício do cargo.

 

Ainda segundo Melo Filho, o senador, apelidado como “Índio”, faz parte do “núcleo dominante do PMDB no Senado” junto de Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan Calheiros (PMDB-AL), formando um grupo “bastante coeso em suas atuações”, com “enorme poder de influência sobre outros parlamentares, tanto do partido como de outras legendas”. Eunício é conhecido por integrar a base leal à Renan Calheiros, ex-presidente do Senado e sendo assim, costuma sabatinar e aprovar quem quer que seja recomendado pelo grupo. 

Poder de barganha

Esse fato [a influência] dá a esse núcleo grande poder de barganha, pois possui a capacidade de praticamente ditar os rumos que algumas matérias serão conduzidas dentro do Senado Federal“, afirmou Melo Filho em delação sobre o grupo do PMDB.

Em junho de 2015, o advogado Cid Marconi foi indicado para o cargo de desembargador federal do Tribunal Regional Federal – 5ª Região (TRF5), com sede em Recife. Logo em seguida, houve a indicação do também advogado Aloísio Carvalho, ex-secretário-adjunto de Segurança Pública durante o governo Cid Gomes, para o cargo de superintendente federal da Pesca e Aquicultura no Ceará.

Fontes procuradas pelo Justificando confirmaram a teia de influência do senador no Tribunal Regional. Já nas primeiras semanas deste ano (2017), uma vaga de desembargador no TRF5 dividiu as opiniões dos aliados Eunício e Calheiros.

A vaga surgiu com a nomeação de Marcelo Navarro Ribeiro Dantas para integrar o Superior Tribunal de Justiça. Calheiros apoia o advogado alagoano Luciano Guimarães enquanto Eunício sugere o advogado cearense Leonardo Carvalho. Integrando a lista tríplice está a advogada tributarista Silvana Guerra Barretto, de Pernambuco – mais votada com 13 votos, embora não tenha apoio político de tamanha expressão. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentou um pedido de reconsideração para que a vaga ficasse com um integrante do MPF (Ministério Público Federal), mas a corte regional rejeitou os argumentos.

Já no TSE (Tribunal Superior Eleitor), em abril e maio deste ano vencem os mandatos dos ministros titulares indicados por Dilma, Henrique Neves e Luciana Lóssio. Nos seus lugares são promovidos os substitutos, entre os quais Tarcísio Vieira Carvalho Neto, que chegou ao TSE com apoio de Eunício. Para a vaga de Tarcísio, especula-se Sérgio Banhos, que contaria com o apoio do Senador. 

Teia de influência atinge toda estrutura de administração

São diversos os exemplos que demonstram o poder de indicação do senador Eunício. Em maio de 2015, o economista Marcos Costa Holanda foi nomeado para o cargo de presidente do Banco do Nordeste (BNB). Na data de sua posse, com exceção do Ceará, nenhum dos oito governadores convidados da Região Nordeste compareceu ou enviou representante.

Em agosto de 2015, Eunício emplacou o genro como diretor da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), o advogado Ricardo Fenelon Junior, para um mandato de 5 anos. Na época, a Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves (APPA) contestou a indicação em uma carta aberta encaminhada ao Senador, Renan Calheiros. “Os Senadores realmente acreditam que, dentre milhares de especialistas que o país possui no setor aeronáutico, os dois nomeados [Ricardo Fenelon Junior e José Ricardo Pataro Botelho de Queiroz] a serem sabatinados na próxima quarta-feira, dia 5 de agosto de 2015, são mesmo as únicas ou melhores pessoas para ocupar cargos de tamanha responsabilidade?“, questionava a carta.

E não parou por aí. Houve também a indicação do sociólogo César Pinheiro, que ocupou a secretaria de Recursos Hídricos do Estado durante o governo Cid Gomes, como presidente da Companhia Docas do Ceará e de Ramon Rodrigues, como diretor-geral do Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas).

Em janeiro do ano passado (2016), Marlon Cambraia, ex-vice-prefeito de Fortaleza (PMDB-CE), foi designado para o cargo de secretário de Monitoramento e Controle da Pesca e Aquicultura, no Ministério da Pesca e Aquicultura. Cambraia foi exonerado do cargo após rompimento do PMDB com o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Em junho, no entanto, o peemedebista entrou no lugar de Glauco Rogério de Araújo Mendes, como secretário de Desenvolvimento Regional do Ministério da Integração Nacional – investigado pela Polícia Federal por suspeita de “lavar dinheiro” para a empresa Andrade Gutierrez.

O Senado aprovou, em novembro de 2016, o advogado Renato Porto para a diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em um mandato de três anos. Porto é servidor concursado na Anvisa desde 2005, e em 2013, assumiu o cargo de diretor da Anvisa após a indicação de Eunício.

Em sua segunda gestão, de acordo com a imprensa local e uma matéria da revista Época, Eunício recebeu “afagos constantes do Planalto”, uma vez que nos bastidores, a informação é de que ele tem sido “peça importante na articulação da base governista no Senado”.

Edição: Brenno Tardelli

Quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
COMPARTILHE

Tweet
Share
Google

APOIO

Apoiadores
Seja um apoiador

ANUNCIE

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 145 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

[email protected]
Av Paulista, 1776, 13º andar, Cerqueira César
São Paulo/SP