“Hoje eu posso usar o nome Márcia Rocha e exigir que me tratem assim”
Quarta-feira, 8 de março de 2017

“Hoje eu posso usar o nome Márcia Rocha e exigir que me tratem assim”

Em meio a uma agenda apertada com eventos e palestras por todo o país, a advogada e empresária, Márcia Rocha, primeira mulher trans reconhecida com nome social na OAB, atendeu-me com imensa simpatia e marcamos uma data para conversar sobre sua carreira, crescimento pessoal, projetos e militância. Márcia é a primeira entrevistada de uma série que o Justificando inicia nesta quarta-feira (8/03) sobre a participação da mulher na carreira do Direito.

Apenas nos dez primeiros meses de 2015, o Brasil registrou mais de 63 mil denúncias de violência contra a mulher. Os dados são da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, que hoje foi integrada ao Ministério da Justiça, e mostram que o número de denúncias corresponde a um relato a cada sete minutos no país. Quando se fala em população LGBT, outro dado assustador: 343 pessoas foram mortas no ano passado. O relatório do Grupo Gay da Bahia aponta uma morte a cada 25 horas, sendo que 64% das vítimas eram brancas e 36% negras, a mais jovem tinha 10 anos e a mais velha 72. O levantamento mostra ainda que mortes de pessoas entre 19 a 30 anos foram a maioria (32% dos casos).

Márcia pode então ser considerada uma sobrevivente. Ela se identifica com o gênero feminino desde sua primeira infância, mas por crescer durante o regime militar, limitou-se em assumir a transsexualidade após os 40 anos. Aos 14, começou a tomar hormônios, mas o pai a convenceu a parar o processo quando ele notou a mudanças físicas. 

Formada em direito pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Márcia é dona de quatro empresas e integra da Comissão dos Direitos da Diversidade Sexual e combate a Homofobia da OAB de São Paulo. Nessa entrevista, a empresária conta que, sem grandes projeções para a futuro, acredita que o uso do nome social é importante no âmbito individual, mas fica feliz que tenha aberto precedentes para outras instituições adotarem a prática. “Hoje eu posso usar o Márcia Rocha e exigir que me tratem assim“, conta.

No momento de publicação desta entrevista, nesta quarta-feira (8), ela se prepara para receber um prêmio em um evento da Associação dos Advogados Trabalhistas de São Paulo (AATSP). Leia a entrevista completa:

Justificando – Márcia, você é militante e especialista na temática da transgeneridade. Me conta um pouco sobre o seu processo de transformação e identificação com o feminino.

Márcia – Eu me identifico com o feminino desde os 4 anos, mas eu não contava para ninguém. Seria complicadíssimo assumir, então eu ficava no armário. (…) Embora eu tivesse algumas atividades ‘masculinas’, eu sempre me identifiquei com brincadeiras ditas ‘para meninas’. Eu nunca gostei, por exemplo, de jogar futebol, mas eu sabia que eu não podia evidenciar isso publicamente.

Em que sentido era complicado?

Olha, eu cresci no regime militar, vim me assumir apenas aos 40 anos, porque a melhor opção naquela época era ter uma “vida dupla”. Há aproximadamente 10 anos, o pensamento da sociedade era outro. Eu podia me arrumar e me expressar [como mulher], mas na minha vida pública eu era um homem. Ninguém imaginava. Eu trabalhava como advogada de terno e gravata. O mundo mudou muito…

Por exemplo…?
Hoje temos diversos movimentos se organizando. Nós fomos criando ambientes de conscientização, foram surgindo leis, inclusive, que nos protegem. Ainda que indiretamente, quando as pessoas se conscientizam, fica mais fácil ajudar. As pessoas tem mais condição de assumirem suas orientações hoje.

Por isso você se sentiu motivada para solicitar o reconhecimento do nome social na OAB?
Eu solicitei o nome social na OAB em 2015. Isso tramitou em vários setores da Ordem e tiveram muitas comissões para avaliar o pedido, que foi concedido pelo Conselho Federal em março do ano passado. Eles pediram um ano para adequar a carteira, passando a valer em janeiro deste ano. Eu já costumava usar “Márcia Rocha” dentro da OAB, as pessoas me conheciam assim. A questão é que, quando eu ia fazer palestras e participar de eventos, constava o meu nome de registro. Foi uma vitória importante pessoalmente, mas o principal é impulsionar, abrir precedente para que outras instituições de diferentes categorias profissionais também respeitem o nome social.

Carteira da OAB com o nome social. Imagem: Reprodução/Facebook/Márcia Rocha

Por que o nome social ao invés de mudar o nome em registro?
Burocracia. Há filas e filas de espera. Eu tenho uma filha, quatro empresas… A quantidade de papéis que eu teria que mudar é enorme. E mais, eu não tenho essa necessidade de trocar o meu nome em registro, me basta poder usar o nome Márcia Rocha oficialmente. 

Há preconceitos no seu dia-a-dia? Você enfrenta o machismo?

Minha área de atuação enquanto advogada são contratos imobiliários e eu advogo praticamente para trans ou LGBTs, então não há preconceitos. Mas o machismo é muito forte contra as mulheres e as transsexuais não ficam atrás. Eu tenho que lidar com situações que são complicadas. As pessoas supõem que eu sou menos capaz. Se eu tiver andando sozinha na rua, à noite principalmente, os homens costumam supõem que eu quero algo, costumam já vir “tocando”. Isso é machismo.

E em repartições públicas…
Não posso dizer que nunca aconteceu. Já houve preconceito em ocasiões isoladas, em repartições públicas e fóruns, mas porque não tinha o meu nome social em lugar algum. Eu sinto que a classe se preocupa em não me discriminar. Hoje, poder ser quem eu sou, me apresentar como eu sou é muito bom e a satisfação pessoal é enorme.

Quarta-feira, 8 de março de 2017
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