Frederico de Almeida: “estrago está feito para quem se alimentou do espetáculo das delações”
Quinta-feira, 13 de abril de 2017

Frederico de Almeida: “estrago está feito para quem se alimentou do espetáculo das delações”

A “lista do Fachin”, expressão utilizada nessa semana para designar quem será investigado a partir da delação premiada do executivo da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, tomou os noticiários nacionais e as redes sociais pela vasta abrangência do espectro político nacional, trazendo profundas consequências para o meio político e jurídico, que se veem em apuros ante a proliferação de investigações e depoimentos nas mais variadas direções.

Procurado pelo Justificando, o Cientista político, Colunista, Frederico de Almeida, e também Professor da Unicamp, avalia que o impacto da lista de Janot “é grande e é difícil mensurar o que pode acontecer a partir de agora”, embora tanto os políticos, quanto a mídia tiveram tempo ante a morte de Teori para prepararem as defesas para esse momento, como é o caso do esforço em demonstrar que caixa dois seria algo distinto que propina.

Para ele, são consequências da delação premiada, que é algo parcial e depende de outras provas, mas muitos que estão hoje comprometidos se alimentaram da espetacularização das investigações e agora se veem atingidos. A profundidade da crise, na avaliação do cientista, é tamanha que até a as eleições de 2018 esperadas para “zerar” o jogo podem não ser suficientes. Leia na íntegra:

Frederico de Almeida, cientista político e professor na Unicamp: “a crise está longe de acabar e, o que é pior, não há nenhum ator político ou projeto de futuro que indique um caminho seguro”. Foto: Reprodução/Facebook

Justificando – Qual leitura você faz desse momento em que grande parte do sistema político sob suspeita e comprometido?

Frederico – Esse momento era esperado, e a demora em divulgar os áudios e analisar os pedidos de inquérito, em função da morte de Teori Zavascki, de certa forma ajudou os envolvidos e a imprensa que os blinda a se prepararem e a prepararem suas defesas. O esforço de diferenciar caixa dois e recebimento de propina de corrupção por meio de contribuição eleitoral, que temos ouvido já há algumas semanas e que tem se repetido nas declarações dos acusados ao longo desses dias é um exemplo disso. De qualquer forma, me parece que o impacto ainda assim é grande e é difícil mensurar o que pode acontecer a partir de agora

Mas delações premiadas podem não ser confirmadas. O estrago está feito?

Sim, delações são meios de prova parciais e que devem ser tomadas com cautela e dependem de outras comprovações. Além disso, o que foi feito pelo STF é apenas a abertura de investigações, que podem ou não resultar em denúncias, que por sua vez podem ou não resultar em condenações.

Mas o estrago está feito e quem alimentou essa espetacularização das delações e das investigações anteriormente se vê agora na difícil posição de recorrer à presunção de inocência e à necessidade de comprovação de responsabilidade para livrar a pele do julgamento instantâneo da opinião pública e dos adversários. E é bom lembrar que esse estrago instantâneo sobre reputações e indivíduos acontece o tempo todo com presos provisórios pobres e negros que lotam prisões sem terem sido julgados, ou que são expostos em programas policiais de TV.

E como você vê a superação dessa crise política?

O horizonte mais certo de superação da crise política, e que ainda assim é muito incerto, são as eleições de 2018, quando o jogo poderia ser “zerado”. Mas mesmo esse cenário é incerto, porque o governo Temer vai sofrer muitas pressões até lá, e corre o risco de ser interrompido por uma decisão do TSE.

Além disso, mesmo as eleições de 2018 vão acontecer sob a espada da Lava Jato, já que novas denúncias e operações podem acontecer, e dificilmente os inquéritos iniciados no STF terão sido concluídos até lá. E mesmo a parte da Lava Jato que corre mais rapidamente, na primeira instância no Rio e em Curitiba, tende a agravar ainda mais a crise, com novas operações espetaculares e com a eventual condenação e prisão de Lula.

Enfim, a crise está longe de acabar e, o que é pior, não há nenhum ator político ou projeto de futuro que indique um caminho seguro se superação da crise sem enfraquecer ainda mais a democracia que já foi vítima de um golpe.

Quinta-feira, 13 de abril de 2017
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