Ao tentar socorrer uma criança, o fotógrafo agiu corretamente?
Quinta-feira, 20 de abril de 2017

Ao tentar socorrer uma criança, o fotógrafo agiu corretamente?

A imagem correu mundo esta semana, um fotógrafo correndo com uma criança nos braços em meio a uma cena de explosão. Abd Alkader Habak agiu corretamente? A discussão sobre o papel do fotógrafo em episódios assim sempre volta à tona. Ele deve registrar o acontecimento ou envolver-se com a situação?

É dificil julgar Alkader Habak, eu talvez fizesse o mesmo. Mas por mais cruel que possa parecer, está errado. Infelizmente.

Vamos primeiramente aos fatos e ao relato do fotógrafo. Alkader Habak estava acompanhando o comboio de ônibus que levava civis em retirada de cidades isoladas na Síria quando uma caminhonete se aproximou e explodiu, foram pelo menos 126 mortos, a maioria crianças.

Alkader Habak estava próximo e ficou abalado instantaneamente. Depois, tentou ajudar uma primeira criança. Já estava morta. Ele pegou uma segunda vítima que, apesar de muito ferida, ainda respirava, Habak então correu para longe do fogo com ela nos braços. Deixou-a em uma ambulância e disse não saber se ela sobreviveu ou não.

“A cena foi terrível. Especialmente por ver crianças gemendo e morrendo na frente de você”, disse ele em entrevista ao Channel 4 News. “Então, junto com meus colegas, decidimos deixar as câmaras de lado e ajudar as pessoas feridas”. Aí está o ponto. Pelo menos um de seus colegas não deixou o equipamento de lado e fotografou-o correndo com a criança. O colega de Alkader Habak não se esqueceu do que estava fazendo ali e por conta disso é que sabemos o que aconteceu.

Repito: eu sei, é cruel, mas um fotógrafo de guerra deve blindar suas emoções. Alkader Habak é fotógrafo. Ele tem a missão de registrar os horrores da guerra, levar a informação visual e causar indignação, reação, respostas e indagações ao resto da população mundial, e não de ser da equipe de socorros.

Nos anos 1990 uma foto causou muita discussão a respeito do papel do fotojornalista. A imagem de um abutre aguardando a morte de uma esquálida criança no Sudão feita pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter. Chocante, a foto rendeu-lhe o prêmio Pullitzer e também muitas críticas. Milhares de pessoas acusavam de ser o fotógrafo o verdadeiro abutre e que ele deveria ter socorrido a criança, Kevin Carter esclareceu que depois do registro, espantou o abutre e continuou com seu trabalho. Mas o julgamento foi pesado demais, o fotógrafo suicidou-se poucos meses depois.

Kevin fez o que tinha que fazer. Mostrar aquilo ao mundo, foi até lá para isso. É totalmente diverso de estar andando na rua e ser surpreendido por um acidente e ser o único que pode efetivamente ajudar a vítima, furtar-se a isso numa hora dessas seria covardia. No entanto quando se vai ao Sudão, à Síria, ou qualquer outro território em guerra, o fotógrafo já sabe o que vai encontrar e sua responsabilidade é a de registrar. Salvar uma única pessoa nada muda e ainda promove o ato heroico. O fotógrafo virou notícia, polêmico, não?

Não digo que seja fácil, eu mesmo não tenho o perfil de suportar uma situação dessas. Por isso não sou fotógrafo de guerra.

Em 2015 a impactante foto do menino Aylan Kurdi, refugiado sírio de três anos que apareceu afogado na praia turca de Bodrun da Turquia comoveu o mundo e trouxe a questão dos refugiados à tona. O homem retratado com Aylan nos braços era um agente da polícia turca, não um jornalista. Cada um no seu quadrado.

Mauro Donato é Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo. 

Quinta-feira, 20 de abril de 2017
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