Os senhores da guerra e um mundo em crise
Quinta-feira, 20 de abril de 2017

Os senhores da guerra e um mundo em crise

Foto: Gage Skidmore/Flickr 

Em sua principal obra, Varoufakis, economista e ex-Ministro das Finanças na Grécia, analisa o sistema capitalista que se iniciou nos anos 70 e ruiu com a crise de 2008, o qual ele chama de Minotauro Global. O sistema baseava-se na manutenção, por parte dos EUA, de déficits crescentes que atraíam um grande fluxo de capital de outros países para o sistema financeiro norte-americano.

O Minotauro servia como um Mecanismo Global de Reciclagem de Excedentes (MGRE) que colocava Wall Street como a engrenagem central do sistema capitalista, para onde fluía o acúmulo de capital por parte de países produtores e exportadores. Não tardou para a financeirização desenfreada da economia apresentar problemas, sobretudo após a onda liberal dos anos 80, que consolidou o repúdio a mecanismos estatais de regulação.

Em 2008, então, ocorreria a pior das crises, baseada na farra de Wall Street com a produção inconsequente de dinheiro privado através de dívidas hipotecárias impagáveis e seguros de alto risco. Em uma economia global centrada no setor financeiro, a quebra de Wall Street com a bolha imobiliária gerou um efeito dominó que atingiria os mercados financeiros mundo afora e, por consequência, as indústrias produtoras que se aventuravam em especulações, gerando uma crise de falta de demanda e desemprego.

Estava morto o Minotauro, e o capitalismo global agora perambulava como um morto-vivo sem um mecanismo que o substituísse. Mas a resposta à crise não poderia ser pior. Justamente quando o setor público possuía poder de barganha frente aos bancos, Obama e a Europa recorreram ao dinheiro do contribuinte para socorrer seus setores financeiros privados, sem pedir grandes contrapartidas. Wall Street estava no poder novamente.

Porém, agora, não havia um plano B para a economia mundial, e banqueiros e especuladores parecem não ter se dado conta de que o Minotauro não pode mais ser ressuscitado. Tão logo a crise de 2008 estourou, os EUA viram seus déficits comerciais, tão importantes para a manutenção de Wall Street, serem reduzidos em mais da metade. Nos últimos 7 anos, a balança comercial americana se estabilizou em um nível ainda muito distante do cenário anterior à crise. Ao mesmo tempo, Wall Street parece não ter conseguido recuperar sua capacidade de absorver os excedentes de capital do resto do mundo, ainda que Trump tenha cedido aos seus desejos ao derrubar leis regulatórias sobre bancos criadas por Obama.

E não há dúvidas de que a crise ainda assombra o globo. A maior prova disso é a ameaça de desintegração da União Europeia, em um continente assolado pelo desemprego e por uma crise da dívida pública que não apresenta sinais de melhora. O Brexit pode ter sido apenas o início de um processo muito maior que agora se aproxima da França sob os discursos tanto da direitista Le Pen, quanto do esquerdista Mélenchon. Efeitos colaterais de uma política que passou a atender demais aos interesses da poderosa Alemanha, que não demonstra a menor vontade de utilizar o grupo para salvar o sul da Europa da crise.

Neste cenário aparentemente sem saída, impossível não fazer referências à época da crise de 1929. E cá como lá, um colapso financeiro que se arrasta por uma década pode fazer, novamente, a guerra surgir como solução. Afinal, uma série de economistas apontam a 2ª Guerra Mundial como uma grande contribuição (a um duro custo humano) para a superação da crise da década de 30. O francês Piketty, por exemplo, coloca as duas Grandes Guerras ao lado do surgimento do imposto de renda como grandes responsáveis, inclusive, pela alta redução da desigualdade de renda no século 20.

Ainda que um absurdo ético inescrupuloso, não é inédito na história mundial que guerras sejam “saídas fáceis” para crises sem solução. Varoufakis cita, por exemplo, o caso da Guerra da Coreia, na década de 50, que, além da motivação ideológica, foi o plano perfeito encontrado pelos EUA para gerar demanda à industrialização japonesa, na época alavancada pelo Plano Marshall norte-americano. Do mesmo modo a Guerra do Vietnã que, se foi uma derrota moral e orçamentária para os EUA, ao mesmo tempo possibilitou a ascensão dos Tigres Asiáticos, importantíssimos para alimentar Wall Street. 

É claro que guerras pontuais na periferia do mundo sempre existiram, e quase sempre impulsionadas por grandes potências. Não é de hoje que conflitos violentos ocorrem no Oriente Médio e na África, e golpes políticos parecem ser uma rotina na América Latina. Assusta o mundo, porém, o cenário que tem se formado no século 21, colocando em conflito potências bélicas nucleares em um ambiente de crise econômica que impulsiona ondas políticas de nacionalismo.

Se na Europa Ocidental começam a pipocar manifestações fascistas que chegam a se materializar em candidaturas como a de Le Pen, no Leste Europeu a Rússia parece disposta a reconquistar sua posição imperialista desde a invasão da Geórgia em 2008. Esbarra nos interesses norte-americanos, onde Trump dá continuidade à política bélica violenta de Obama sob o discurso de guerra ao terror.

Todos esses conflitos tem se desenrolado principalmente no Oriente Médio, chacoalhado por uma primavera árabe impulsionada, em grande parte, por interesses americanos, onde a Síria é a bola da vez. E a situação na região pode piorar ainda mais com a vitória em referendo do Presidente turco Erdogan, conhecido pela perseguição violenta a seus opositores, principalmente aos curdos, e pelas suspeitas de negociar petróleo com o Estado Islâmico. Tudo isso somado ao iminente conflito entre Coreia do Norte e EUA que, pelo menos por enquanto, não ultrapassaram a habitual guerra de palavras.

O cenário atual é um prato cheio para os senhores da guerra e para a indústria bélica. Aliás, os gastos militares mundiais, que caíram por 13 anos seguidos, finalmente voltaram a subir em 2011. Só em 2015, o mercado de armas movimentou U$ 65 bilhões no mundo. É inegável que esse é um mercado com potencial o bastante para recuperar economias financeirizadas como a de Wall Street, sedenta por remessas de excedentes desde a crise de 2008. E um mundo atordoado por populismos extremistas e construído após anos de um direito internacional que protegeu arsenais bélicos de superpotências ao mesmo tempo em que fazia vistas grossas às práticas controversas de sistemas financeiros e bancários privados faz com que o temor da guerra volte a assombrar a população.

Há sempre espaço para pensar a derrubada de um sistema e sua substituição por um novo, ainda que revoluções sejam um fenômeno raro na história da humanidade. Mas numa perspectiva mais “pé no chão” (ou resignada), é ao menos chegada a hora de, para além do respeito aos direitos humanos e da construção da democracia, o direito internacional lançar um olhar sobre a economia mundial de modo a construir uma estrutura jurídica de equilíbrio global. Nesse sentido, o imposto mundial sobre capital imaginado por Piketty e o mecanismo de reciclagem de excedentes baseado em um grupo de países emergentes pensado por Varoufakis podem ser um bom começo para um mundo com menos desigualdades regionais onde a paz tenha mais chances.

Almir  Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

 

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