A micropolítica do espetáculo e o preço da verdade
Quinta-feira, 18 de maio de 2017

A micropolítica do espetáculo e o preço da verdade

Foto: Paulo Pinto / AGPT

De um dia para outro, vemos o país mergulhado em mais uma crise política e institucional. A contingência não perdoa; se lá atrás, após o golpe que retirou a Dilma Rousseff da Presidência da República, nosso horizonte de expectativas só conseguia contemplar um longo e sofrido desgoverno até 2018 sob a chefia do Michel Temer, a noite de ontem e a madruga de hoje alteraram todas as coordenadas políticas. Um suspiro de alívio para muitos, principalmente para a classe trabalhadora brasileira, mas também uma crise apneica preocupante.

A felicidade, os afetos comemorativos, as tripudiações, os “a culpa não foi minha”, circulando nas redes sociais representam a explosão de um grito contido há muitos meses, mas que também preocupam. Num momento em que surgem pontos comuns para uma reivindicação unitária e que reconcilie parte das polarizações despropositadas, os pardais piam tresloucadamente para sustentar seu ego em meio à mixórdia dos fluxos desinformados de uma micropolítica do espetáculo. Nessa cena, o objeto que a sustenta é a fantasia do acerto; “eu estava certo”, “eu já suspeitava”, “eu não te disse”?

Sim. É momento de celebrar, pois são raros esses espaços “kairólogicos” (kairós = momento oportuno, acontecimento, encontro) onde o tempo é suspenso e a tímida justiça se deixa entrever em meio a uma de suas raras aparições. Contudo, mais do que isso, é momento, mais uma vez, de luta. As expectativas dos futuros que se abrem continuam jogando contra nós; as eleições indiretas são o primeiro instrumento para remediar a atual situação; as eleições diretas só serão possíveis se houver clamor e pressão popular.

O chamado das ruas é pra ontem.

Mas, é forçoso dizer, não podemos nos perder em meio às estupidezes desses pardais que não tem um canto pra cantar. Quando a explosão se dá num espaço de disputa de lugares de fala e de holofotes, a clivagem narcísica produz sujeitos que desesperadamente exigem ocupá-los. A tentação de mostrar ao mundo a clareira do ego toma muitos de assalto. Precisamos ter calma. O momento não é de forçamento das polaridades. O momento é de constituição de pautas comuns. Depois de muito tempo, o que nos foi dado de presente ontem é a possibilidade de reconstituir uma esfera do comum. É um trabalho árduo e difícil; uma empreitada digna de Sísifo. Mas esse é o preço a se pagar pela verdade. Um preço caríssimo.

Apertemos nossos cintos, pois a crise política e institucional entra agora num campo ainda não experimentado pela jovem democracia brasileira e será preciso muita luta, organização e culhão pra segurar o rojão que vem por aí. 

Diogo Mariano Carvalho de Oliveira é mestrando no Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP, graduado em Direito na Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP, graduando em Filosofia na Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP, bolsista de mestrado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e militante do coletivo Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia – CEII.

Quinta-feira, 18 de maio de 2017
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