Catártica, confusa e com certa arquitetura: como está sendo a queda de Michel Temer
Segunda-feira, 22 de maio de 2017

Catártica, confusa e com certa arquitetura: como está sendo a queda de Michel Temer

Fotos: Aluízio Gomes

Na avalanche informativa que vem ocorrendo desde o dia 17 de maio de 2017, momento em que se soube, por estopim de matéria veiculada na edição de internet d’O Globo, da conversa espúria entre o magnata da JBS, Joesley Batista, e o presidente ilegítimo Michel Temer, impossível não ceder à perplexidade.

Como entender o que se opera nos bastidores articulados que orientam a insistência da Globo, por meio de seus jornais, em poucos dias demolir as bases, já praticamente inexistentes, do governo ilegítimo que ela mesma contribuiu para colocar no poder?

A própria jornalista Renata Vasconcellos, precedida pela chuva de pequenos microfones e dos 20 “tãs” que ambientam o single do plantão televisivo da emissora, parecia não conseguir esconder o nervosismo com o objeto da transmissão ao vivo. Ofegante, ao anunciar a “notícia que representa um forte abalo na vida política do Brasil”, instaurou naquela quarta-feira um clima de alerta nacional com um impacto maior do que se observou no vazamento da conversa entre Dilma Rousseff e Lula capitaneada pelo juiz Sérgio Moro em 16 de março de 2016 (dois meses antes da abertura do impeachment sem crime de responsabilidade encerrado em 31 de agosto).

Por ironia do destino, ao anunciar o áudio entre Dilma e Lula no Jornal Nacional de 16 de março de 2016, a jornalista trajava uma elegante camisa azul escura, diferentemente da última quarta-feira, em que apresentava uma versão vermelha da vestimenta.

É claro que não há qualquer relação entre as cores da camisa da jornalista com a conjuntura política, até porque não se alternam polaridades discursivas nesse nível estético. Entretanto, observar a força dos pequenos microfones do plantão global nos permite concluir que tal espaço de 1 ou 2 minutos é capaz de pulverizar a sensação de fundo a partir da qual emanam as percepções do público enunciatário acerca dos acontecimentos programados a vir (ou não) à tona.

Para ilustrar tal arranjo de polaridades, uma transmissão da TV Cultura de 18 de maio de 2017 merece ser analisada. Gaudêncio Torquato, que já foi consultor político de Temer, em participação no Jornal da Cultura, afirmou que o diálogo entre o dono da JBS e o chefe do Executivo não caracteriza algo anormal, já que “o presidente da república tem a obrigação, sim, de ouvir os principais empresários do país”. Em defesa de Temer, o consultor justifica que, simplesmente, Batista “pediu uma audiência com o presidente para conversar sobre a empresa dele, e o presidente aceitou conversar”.

Segundo o consultor, não se identifica qualquer problema com o acontecimento tornado público, ou mesmo com as falas registradas, que sob algum nível interpretativo não explicitariam a anuência do presidente da república em relação aos esquemas de corrupção tratados pelo empresário. Esquemas, aliás, que evidentemente são de conhecimento do presidente ilegítimo, a prosear sobre os quais com eloquente naturalidade.

Certo é que a opinião pública não acolheu o teor abissal do que anunciou o comentarista[1], dados os seus indefensáveis argumentos pretendentes a isentar o governo federal da conduta criminosa. Comparativamente, nem o Jornal Nacional conseguiu a proeza de abafar a gravidade do que se conversou na reunião secreta.

Apesar de ter acontecido em 17 de maio de 2017 com o governo ilegítimo de Temer algo que, psicologicamente, assemelha-se ao que ilustra a cena final do filme Bastardos Inglórios (2009), na qual Quentin Tarantino aniquila a figura de Hitler e da cúpula nazista em uma sala de cinema ardendo em chamas, representando o apelo inconsciente do público que catarticamente se vinga das atrocidades cometidas pelo Führer, ainda não se sabe o que está por detrás da atual campanha antitemer.

Reflexivamente, a conjuntura impõe que busquemos refúgio nas expressões artísticas, garantidoras de nossa sanidade e coerência. Mestre das ilusões de ótica, a partir de elaborações pictóricas que lidam com a perspectiva, o artista gráfico Maurits Cornelis Escher (1898-1972) foi capaz de num mesmo plano geométrico, cognoscitivamente possível, edificar estruturas impossíveis, como no caso de Waterfall (1961), em que uma cascata cai sobre um moinho que retroalimenta um sistema hidráulico inconcebível.

Despautério, sim, comparar a genialidade do artista com as corrompidas estruturas do governo ilegítimo e golpista e suas malhas de articulação. Contudo, fiquemos atentos às aparências: por que a Globo e seus jornais pouco suspeitos escolheram voltar as costas contra Temer?

Talvez o notável ilustrador fosse capaz de nos explicar, traçando retas interpretativas sobre um mesmo plano da aparência, que não se tratam de patamares distintos de movimento. Tal qual a compreensão da obra de Escher, a conjuntura política também depende de jogos de perspectiva para operar, ainda que se trate da revelação de algo incompreensível.

Seja como for, o presidente golpista está caindo. A propósito, tal qual a água que se ilustra na obra de Escher, ele nunca chegou a subir, senão por um conjunto de manipulações de perspectivas entabuladas.

Pedro Alves é advogado, participa do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital da Faculdade de Direito da USP.


[1] Algumas manifestações do público sobre as colocações do comentador podem ser verificadas na lista de comentários da publicação no YouTube.

Segunda-feira, 22 de maio de 2017
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