Soneto de Sororidade: um ano de coluna no Justificando
Quarta-feira, 14 de junho de 2017

Soneto de Sororidade: um ano de coluna no Justificando

Foto: Sororas – Juízas membras da coluna Sororidade em Pauta (Arquivo pessoal).

No dia 02 de junho nossa coluna completou seu primeiro ano de vida e acredito que desde lá tenho renascido todos os dias rumo a plenitude de ser mulher e ouso dizer que minhas companheiras de caminhada e indagações também. Sim, este texto é uma homenagem a todas elas, mas não só a elas, mas a todas as mulheres, reconhecidas e anônimas, que ao longo da história se reuniram em torno da mesma luta.

Afinal, parafraseando a célebre frase de Simone de Beauvoir, que abre o segundo volume do livro O segundo sexo: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”: Não nascemos feministas, tornamo-nos.

Inicialmente éramos um pouco mais de 10 mulheres, reunidas, em um espaço virtual, para tratar dos assuntos ligados à coluna semanal “Sororidade em Pauta”, mas pouco a pouco ampliamos as formas de debates, tornando-o ao mesmo tempo complexo e intimista, expandindo afetos, para hoje congregar 44 integrantes, dos mais variados cantos do Brasil, do Norte ao Chuí, passando por Pernambuco, São Paulo, Santa Catarina, Pará, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Norte, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e tantos outros lugares, num coletivo que carinhosamente denominamos de “As Sororas”

Sem medo de errar, percebo que, ao longo desse lapso temporal de pouco mais de 365 dias, todas foram amadurecendo naquele espaço, soltando-se, abrindo-se, desabrochando, cada uma a sua maneira. E elas têm sido, conforme suas experiências, temperamentos e personalidades, responsáveis pela reconstrução dessa mulher que sou e quero ser. Assim, ensinam a mim e às demais a pensar o feminino a partir de uma nova perspectiva, num compromisso diário para apagar em nós o preconceito e as limitações decorrentes do aculturamento patriarcal e assim vamos desconstruindo o divisionismo que, por séculos imperou, para nos dominar.

Problema histórico este que os estudiosos do feminismo atualmente discutem, oportunizando reflexões como estas, para que agora, mulheres como nós, possam seguir de mãos dadas, sem medo de se reconhecerem, ao mesmo tempo, únicas e coletivas.

Tanto que, Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel [1] defendem que a partir da década de 80, internacionalmente têm se formado um rico debate, definindo uma pauta mais ampla nas discussões da teoria e prática política do feminismo, ou melhor dizendo dos feminismos, na medida em que na atualidade trabalha-se, cada vez mais, com o conceito de pluralidade de abordagens, visando respeitar as narrativas dos diversos sujeitos que compõem este objeto de estudo.

Essa corrente também rediscute a dicotomia entre espaço público e privado, recorrente, por muito tempo, no plano teórico, em que defendia que para a mulher ocupar, com plenitude, o espaço público deveria abandonar o espaço privado, eis que este a ela tinha sido reservado estrategicamente pelo sistema de dominação masculina. Essa nova perspectiva se encaixa perfeitamente com a convivência que experimentamos em nosso coletivo.

Afinal, ora trocamos informações e leituras, dos mais variados assuntos, que vão do feminismo negro, passando pela questão indígena até discussões sobre a emancipação do corpo e do prazer da mulher – sim vagina é tema recorrente – e sobre a necessidade constante de romper com a linguagem patriarcal que nos marca e subordina, sem nos descuidar das situações do nosso próprio cotidiano como a relação com filhos, família e o trabalho e a partir delas saímos mais fortes, quer do ponto de vista individual ou coletivo.

Lá, somos livres para falar dos mais variados assuntos sem tabus. Todas, que se sintam à vontade, dão suas opiniões, que podem ser convergentes ou não, sempre respeitando o lugar da fala e a vivência de cada uma. Umas são mais caladas, outras mais tagarelas, mas até as mais tímidas já tiveram a coragem de dizer o quanto crescerem ao longo desta convivência, com relatos arrebatadores sobre o que foram capazes de fazer a partir da escuta apenas como “ouvintes”.

Quando alguma mais falante desaparece por algum tempo, mesmo entre tantas ainda presentes, sentimos suas ausências, porque suas presenças são sempre eloquentes. Engraçado que às vezes me pego lendo alguma discussão e penso: “-Como Laura, ou Paty, ou Gabi, ou Fê, ou Andrea, ou Juliana, ou Kenarik, ou Karla, ou Naiara, ou Dora ou Anoca ou Janine ou Simone pensam sobre isso?” E não demora elas chegam dando suas opiniões. Algumas mais duras, outras mais doces, mas todas com uma narrativa pulsante e necessária para o crescimento de todas.

Uma em especial some mais que as outras e sentimos por demais seus escapismos, porque ela é pura revolução, no modo de ser, agir, falar e amar, mas quando ela retorna traz a alegria em cada palavra de sua gramática peculiar, por soletrar de forma inventada e totalmente onomatopoética o nome de cada uma de nós. Ela ainda nos brinda com seus memes de suricatos ou distribuindo músicas que vão do Reggaeton Cubano, passando pelas músicas protestos de Chico Buarque e Belchior, ao carimbó de Pinduca e Dona Onete, e o manguebeat de Chico Science e Nação Zumbi e tantos outros.

Em alguns dias, trocamos títulos de livros, que podem ser literatura universal, como o Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe, de feministas como como Mulheres, Raça e Classe de Angela Davis, Como criar crianças feministas, de Chimamanda e o frisson do grupo no momento Teoria King King de Virginie Despentes, entre tantos outros. Deste último saiu a promessa de debate presencial no próximo encontro da Sororidade marcado para setembro/2017 em Paquetá no Rio de Janeiro.

Tudo permeado a muitas confissões do cotidiano de cada uma, que pode ser uma memória do passado ou um conflito mais recente, dividido com muita poesia e escutado com muito afeto. E em resposta aparecem mensagens de incentivo do mais alto grau de empatia, comovendo tocando a cada uma, que num lindo exercício catártico passam a contar suas próprias histórias.

Logo no início, lembro que certa vez teve uma discussão sobre o machismo que está nos detalhes, na piada machista do companheiro, no comportamento misógino da amiga. Muitas deram suas opiniões. Uma delas chegou a afirmar que com as pessoas mais próximas a ela, que são, em regra, sem preconceitos, mas por conta da sua geração, vez ou outra escorregam no machismo, concedia-lhes licenças poéticas e não os repreendia. Então, uma de nós, mais iniciada na questão do feminismo explicou didaticamente porque não podemos deixar passar tais “naturalizações” e várias foram dando suas opiniões ou contando seus casos. Algum tempo depois, essa Sorora volta contando que tinha tido um enfrentamento terrível com um ente querido por conta de um posicionamento machista e que aquilo somente foi possível a partir daquela pequena lição.

E aqui eu poderia contar tantas outras passagens, como a partida de uma avó querida, que desencadeou em nós várias narrativas da convivência maternal com suas respectivas avós, sobre herança e hereditariedade, o amor pela cozinha, pelo cuidado com o outro, pela profissão obtida ainda que tardiamente, pois estas mulheres, mesmo sendo frutos de uma outra era – impregnada de preconceito, misoginia e machismo – deixaram marcas indeléveis para o nosso atual empoderamento.

Outra vez, uma mana chegou arrasada pela interrupção de uma gravidez muito desejada. Cada uma de nós a acolheu com palavras de carinho e incentivo, assegurando-lhe um lugar para falar de sua dor e incertezas. A partir daí se iniciou um lindo debate sobre maternidade, a exigência da sociedade para ter filhos. E aquelas que não os querem? E aquelas que querem apenas adotar? E cada uma novamente foi repartindo a sua história, histórias de gravidez na adolescência, partos naturais e humanizados, partos dolorosos, adoções, abortos, nascimentos de filhos, culpa materna, maternagem, paternidade responsável, entre tantos outros.

Um dos assuntos mais reveladores se deu quando tratamos da questão do machismo no Judiciário, percebemos que em todas as esferas, de forma mais ou menos intensa, o componente está presente, ainda que sejamos mulheres que, do ponto de vista social, galgamos um lugar diferenciado na estrutura profissional do país. Histórias de perguntas machistas em bancas de concurso, colegas que reclamam quando a juíza precisa se afastar porque está de licença maternidade, interrupções de falas repetidamente em ambientes públicos até a tentativa de um ginecologista de um tribunal em recusar o ingresso da candidata grávida de 08 meses por inaptidão, sim tudo isso em pleno século XXI.

Todas essas experiências demonstram que neste espaço é possível a construção de narrativas mais afetas ao espaço privado como maternidade, filhos, viagens, livros, músicas, sem se descuidar das questões mais recorrentes ao espaço público como trabalho, ética e política (esta em sentido amplo), na medida em que uma retroalimenta a outra.

Assim, essas reflexões têm nos feito mais fortes. Exemplo disso, consiste no próprio compromisso de escrever na coluna, eis que num primeiro momento, muitas de nós, duvidavam da sua própria capacidade, reflexo da cultura patriarcal que nos incute uma constante insegurança capaz de minar constantemente nossas auto-estimas e esse passo dado por algumas serviu de modelo para outras, que a cada dia tomam coragem e debutam na coluna para serem lidas Brasil afora, libertando-nas de nossas próprios medos.

E num segundo momento nos permitindo passar para a concretude das ações e vivência da militância, não necessariamente apenas no movimento feminista, mas em todos aqueles lugares onde há pessoas em situação de vulnerabilidade, seguindo as lições de filósofas negras como Angela Davis [3] e Djamila Ribeiro [4] – ao falar da luta emancipatória do movimento feminista negro e que aqui me inspiro para fazer um recorte mais abrangente -, pois a luta pela emancipação das mulheres deve ser radical, uma vez que não podemos lutar apenas por nossos direitos, sob pena de continuarmos reproduzindo a lógica de opressão com outros grupos, uma vez que sem fazer o necessário debate de raça, gênero e classe não estaremos lutando pela nossa verdadeira emancipação.

Inclusive, essas divisões são uma das falhas do início do movimento feminista, na problemática travada entre as sufragistas e o movimento anti-escravagista norte-americano, que o movimento contemporâneo tenta não repetir. Afinal, grande nomes como Elizabeth Cady Stanton não conseguiram suplantar suas concepções limitadas quanto a interseccionalidade de ambas as lutas, diferentemente das irmãs Grinké e de Prudence Crandall. A primeira arriscou a vida defendendo o direito das crianças negras à educação. E as irmãs se tornaram exímias oradoras em prol da causa absolutista, pois àquela época já tinham a plena convicção da indissociabilidade entre a luta pela libertação negra e luta pela libertação feminina e nunca se deixaram seduzir pela armadilha ideológica de insistir que uma luta era mais importante que a outra, reconhecendo, desde então, o caráter dialético da relação entre as duas causas.

Então, nós, alicerçadas nas impressões do feminismo contemporâneo, pretendemos seguir o mesmo caminho: o do respeito às diferenças, comprometendo-nos de maneira ampla para o fim das opressões. Para isso precisamos ser e estar fortes, sendo imprescindível a existência de microespaços de afetos e bons encontros como os que construímos a partir da “Sororidade”.

Afinal, para seguir na luta é preciso suporte. E nada melhor do que o amparo e o olhar de outras mulheres que sofrem e sentem muito parecido com você ou se não por serem capazes de lhe proporcionar uma reflexão sincera sobre seus seus antigos pré-conceitos.

De modo que, hoje e no futuro seguimos assim, nos acolhendo nas tristezas e dificuldades, vibrando com as vitórias, ainda que pequenas, não cansando de reconhecer a felicidade por esse encontro e o amor que nutrimos umas pelas outras, como fez recentemente a mais apaixonante de todas nós, depois de voltar de um Seminário sobre a Revolução Russa, onde se tratou, entre outras coisas, sobre as discussões da emancipação feminina naquele momento histórico, ela nos deixou a seguinte mensagem: “Quero declarar que estou invadida por Maiakovski, hoje fui preenchida pela fala do professor Lourival Holanda. A fala bordava esse poeta monstro. Então eu conversei com o poeta voltando pra casa: Maiakovski, hoje, toquei de novo, ainda que tangencialmente, as mãos da esperança …. Que sensação inenarrável renovar forças …Meninas, às vezes sinto isso entre alguns e algumas amizades … dentre elas as sororas. Então resolvi declarar meu amor, minha gratidão, a todas, renovando a energia dispensada (no sentido de distribuída) da nossa luta.”

Pois, como bem pontuou Djamila Ribeiro em recente palestra em Belém: “Ser feminista necessariamente é ter a coragem de assumir uma postura incômoda, a gente vai trazer narrativas de incômodo, as pessoas precisam se incomodar e só a partir daí que a mudança vem. A gente precisa ter a coragem de construir as nossas narrativas.” E finalizou: “Quando você pensar em desistir pense nas mulheres negras que abortavam para seus filhos não nascerem escravizados, nas mulheres que preferiram morrer a ser escravas, nas mulheres que deram a vida pra gente estar aqui hoje, porque nossa luta só faz sentido no sentido coletivo mesmo. A gente olha pra trás e percebe que muitas tiveram a coragem de fazer essas disputas, mesmo num país com um projeto ideológico de nos exterminar, essa deve ser a nossa guia, a resistência militante, uma resistência que as nossas antepassadas nos trouxeram, para a gente construir outras narrativas e reconfigurar esse mundo através de outros olhares.”

O que nos dá a perspectiva de que isso que fazemos não é novo na história da humanidade, pois as mulheres se unem, se ajudam e resistem coletivamente desde as tribos pré-históricas, passando pelos quilombos dos tempos da escravidão, assim como nas lutas operárias por melhores condições de vida na Revolução Industrial, seja pelo direito ao voto no final do século XIX, seja as campesinas por terras em tempos atuais.

Sim, essa colcha de retalhos que cerzimos a tantas mãos é ancestral, o que explica a própria diversidade da natureza da mulher e o que nos faz seguirmos unidas, apesar de separadas por quilômetros de distância, destruindo velhas premissas, reconstruindo novas formas de afeto e de pensar o mundo, tendo a plena consciência que o ponto de intersecção que nos trouxe até aqui não é o fato de sermos juízas, mas sim mulheres, cada uma com sua luta e que neste espaço se tornou plural, sem perder as peculiaridades que nos definem singularmente. E aqui ouso, como no começo, falar por todas nós, que renovamos o compromisso feito pela Sororidade em Pauta no seu primeiro artigo: Lutar por cada uma e por todas as mulheres. Afinal, como disse Pagu: “Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre.” Vamos juntas?

Elinay Melo é Juíza do Trabalho Substituta no TRT 8ª Região. Especialista em Economia do Trabalho e Sindicalismo pelo CESIT/Unicamp. Diretora Financeira da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 8ª Região – AMATRA8 (Biênio 2016/2018). Membra da Associação Juízes para a Democracia (AJD).

Compõe a coluna “Sororidade em Pauta” em conjunto com as magistradas Ana Carolina Bartolamei, Célia Regina Ody Bernardes, Claudia Maria Dadico, Daniela Valle da Rocha Müller, Fernanda Orsomarzo, Gabriela Lenz de Lacerda, Janine Ferraz, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Lygia Godoy, Naiara Brancher, Nubia Guedes, Patrícia Maeda, Renata Nóbrega, Gabriela Lenz Lacerda, Roselene Aparecida Taveira, Simone Nacif, Valdete Souto Severo e Janine Soares de Matos Ferraz.


1 – Miguel, Luis Felipe et. al.. Feminismo e política: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2014, pg. 07.

2 – Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo, Boitempo, 2016.

3 – Pesquisadora na área de Filosofia Política e feminista. Foi secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, prefaciou o livro Mulheres, raça e classe de Angela Davis.

Quarta-feira, 14 de junho de 2017
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