Antiga casa grande, Hotel Fazenda em Campinas romantiza a escravidão
Segunda-feira, 10 de julho de 2017

Antiga casa grande, Hotel Fazenda em Campinas romantiza a escravidão

Foto: Reprodução/Hotel Fazenda Solar das Andorinhas. Publicação publicada originalmente por Brasil de Fato

“Este chão é abençoado, serão felizes todos os que aqui pisarem, porque o meu sinhô era bom” é uma frase pintada em uma placa que recepciona os hóspedes do Hotel Fazenda Solar das Andorinhas, em Campinas, interior de São Paulo. Atribuída a uma mulher escravizada, identificada apenas como Clemilda e que supostamente alcançou a extraordinária longevidade de 120 anos, a frase é uma das marcas que romantizam e normalizam o período escravocrata na hospedaria.

O local é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por abrigar a antiga Fazenda Duas Pontes, propriedade do Barão de Itatiba, que chegou a escravizar 70 pessoas. O ambiente – ainda dividido entre casa grande (onde pode-se dormir inclusive no “Quarto do Barão”), ruínas das senzalas, e  “Cozinha dos escravos”, onde são realizados chás noturnos, jantares e outras atividades – chega a incomodar alguns hóspedes.

Para Fran*, que ficou hospedada no hotel para um Congresso do qual participou, a forma como a história é preservada pelo local pode ser caracterizada como apologia à escravidão. “Eu nunca tinha estado em um local do tipo. Mexeu muito comigo, foi um misto de angústia, de ficar imaginando como seria minha vida em um local como esse há tempos atrás. Fiquei me perguntando se só eu sentia esse desconforto, porque me parece que não há uma intenção de fazer uma crítica ao processo histórico deste local”, opinou.

Engenheira agrônoma, Fran possui ascendência quilombola, e conta que chegou até mesmo a ser “confundida” com funcionários do Hotel no primeiro dia de sua estadia. “Eu estava perto da recepção e um hóspede chegou perguntando informações do Hotel. Não é a primeira vez que isso aconteceu, mas é uma reafirmação da desigualdade racial no Brasil e de como as pessoas aqui revivem o passado. Há poucas pessoas negras como hóspedes”, afirmou.

No site do Hotel, uma série de textos destacam que o ambiente é relaxante e perfeito para férias em família. Um texto escrito por uma jornalista e publicado no Site destaca que o ambiente, principalmente a “Cozinha dos Escravos”, é “mágico”. Para Fran, entretanto, foi impossível “relaxar” durante a estadia no Hotel. “Tudo aqui remonta a um processo muito violento. Para mim é muito mais melancólico do que um espaço de paz. É uma mercantilização do sofrimento histórico do povo preto”, denunciou.

Uma funcionária entrevistada pela reportagem, trabalhadora do hotel há mais de 15 anos, revela que o desconforto é comum entre os hóspedes. Enquanto lavava a louça na “Cozinha dos Escravos”, ela contou que desde pequena morava na região, e que tinha muito medo da “Fazenda Mal Assombrada”, que ficou fechada por 20 anos entre os anos 1950 e 1970, quando foi leiloada para os atuais donos do hotel.

“Era um mato só aqui dentro, meu pai falava que era mal assombrado. As pessoas enxergam os escravos. Tinha um hóspede que sentava aqui na cozinha e dizia que via vários trabalhando. Eu sou espírita, então percebo algumas coisas, e eles sofreram demais, né? As crianças têm medo, às vezes chegam até a porta desta cozinha e choram, falam que não vão entrar”, contou.

Procurada pela reportagem presencialmente, por telefone e por e-mail, a gerência e a diretoria do Hotel Fazenda Solar das Andorinhas não quis se pronunciar sobre a história e ambientação do hotel.

Fazenda Santa Eufrásia

Não é raro o turismo que aproveita antigas fazendas e casas grandes para ressaltar como positivo esse período da história brasileira. Em uma breve busca na internet é possível localizar uma séries de hotéis fazenda que se colocam como uma potencial “volta ao passado”, elogiam barões e fazem poucas menções às pessoas escravizadas, ressaltando, quando muito, que após a abolição da escravatura elas “escolheram permanecer no local”.

Um caso emblemático ficou famoso após ser mencionado em uma matéria do site The Intercept, em dezembro de 2015. A Fazenda Santa Eufrásia, localizada em Vassouras (RJ) e parte do mapa da cultura do estado, realizava encenações romantizando o período da escravidão. Em um vídeo produzido pelo veículo jornalístico, as encenações da herdeira e proprietária da fazenda, Elizabeth Dolson, indignaram os leitores. “Racismo? Por causa de quê? Por que eu me visto de sinhá e tenho mucamas que se vestem de mucamas?”, questionou Dolson.

O caso levou o Ministério Público Federal de Volta Redonda e a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro a entrarem com um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) contra a fazenda, celebrado no dia 6 de maio deste ano, com o objetivo de assegurar o fim das encenações sobre escravidão e estabelecer medidas reparatórias.

Segundo o Procurador da República responsável pela TAC, Julio José Araujo Junior, a opção pela ferramenta jurídica foi justificada por uma tentativa de evitar conflitos judiciais,  já que a prática de “naturalização da inferiorização dos negros na recepção a turistas” é muito comum na região serrana do Rio de Janeiro. “Minha ideia nunca foi buscar um embate de criminalização, mas aproveitar a discussão para fazer uma mudança. A situação da Santa Eufrásia era extrema, mas estamos entrando com recomendações em outras fazendas dos tipos. Aos poucos, vamos plantando sementes”, afirmou.

O TAC traz uma série de sugestões que estão sendo implementadas pela fazenda, desde a instalação de placas contando a história da escravidão como crime contra a humanidade, até a abertura mensal do espaço para realização de atividades culturais das comunidades quilombolas da região. “Toda vez que ela realizar uma visita vai ter que mostrar um vídeo contando essa história, um texto. No começo a dona da fazenda não entendia bem. A idealização do barão em Vassouras é algo impressionante, mesmo que a reportagem tenha gerado indignação no Brasil inteiro, na cidade as pessoas não entendiam o motivo”, contou. 

Ressignificação

O TAC, construído em conjunto com comunidades quilombolas e organizações do movimento negro, teve o objetivo de construir um novo modelo do turismo de memória no Rio de Janeiro. Na opinião de Fran, a preservação da memória no Hotel em Campinas também poderia ser feita de outra forma. “As pessoas têm que apresentar como de fato foi, não maquiar um processo. Isso reforça na cabeça das pessoas o quanto é natural permanecer com um espaço desses. Até que ponto isso não influencia a percepção das crianças que crescem vindo em um ambiente como esses?”, pergunta.

Em contrapartida, uma outra fazenda de Campinas, também mantida por trabalho escravo durante o século XIX, realiza desde 2007 uma simbólica ressignificação do espaço. A Casa de Cultura – Fazenda Roseira, hoje é ocupada pela Comunidade Jongo Dito Ribeiro, Patrimônio Cultural Imaterial, que realiza uma série de atividades culturais e educativas. A Fazenda se tornou um equipamento público comunitário da Prefeitura Municipal de Campinas, que em 2015 formalizou a permissão do uso do espaço pela comunidade.

Para a historiadora, urbanista, e coordenadora da Casa de Cultura, Alessandra Ribeiro, a importância do espaço está justamente na valorização da cultura afro-brasileira. “Nossa missão não é apagar uma memória dos escravizados, mas sim reconhecer que foram inclusive os nossos ancestrais, que foram roubados e escravizados, que construíram essa Casa Grande, com técnicas e tecnologia africana. Queremos valorizar esses saberes para além da escravidão. Sentimos que o Brasil, em seu racismo assoberbado, ainda desconhece muito as contribuições africanas”, apontou.

A historiadora critica a existência de fazenda e hotéis fazenda que ainda fazem apologia à escravidão. “Acho lamentável que ainda não tenham conseguido se descolonizar para fazer daquele repertório arquitetônico uma possibilidade de transformação social. Que ainda fazem uma apologia sem debaterem o débito da atrocidade que fizeram com seres humanos”.

Cidade Castigo

Campinas é conhecida por historiadores e pesquisadores como a última cidade do país a abolir a escravidão. Já o Brasil, como se é conhecido, foi o último país do mundo a abolir a prática, em 13 de maio de 1888. Além disso, há registros de relatos que apontavam a cidade paulista como uma das mais violentas para negros escravizados na época. Nesse contexto, Ribeiro questiona os dizeres que enaltecem o Barão de Itatiba na placa no Hotel Solar das Andorinhas. “O conceito de senhor bom no século 19 é um barão que não matava. Bom e ruim era algo muito complexo”, afirmou.

“Há registros e relatos da prática de escravidão em Campinas até 1920. Alguns relatos mostram que quando os escravizados ‘aprontavam’ na região paulista, eles eram vendidos para os senhores de Campinas, de tão violentos que eram. Uma das práticas de castigo era o corte dos tendões dos negros escravizados, porque isso impossibilitava a fuga mas não o trabalho. Então era uma cidade com tal grau de atrocidade que ainda temos muitas marcas deste passado, é uma cidade essencialmente racista”, completou a coordenadora da Casa de Cultura.

Diante dos rumores que cercam a história de Campinas, a Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados Brasileiros da cidade (OAB), fundou sua Comissão da Verdade sobre crimes da escravidão com o objetivo de também entender o papel que a região e seus barões cumpriam na época. Na OAB há uma Comissão da Verdade Nacional da Escravidão Negra, comissões seccionais em 18 estados, além de 234 Comissões municipais.

Segundo o advogado Ademir José da Silva, que presidiu a Comissão após sua criação, em 2015, o Hotel Fazenda Solar das Andorinhas está no roteiro de pesquisa e investigação. “Temos em Campinas muitos rastros da escravidão. É difícil admitir um juízo de valor sem maiores conhecimentos, mas entendo que não tivemos escravização pacífica. Nosso entendimento é que o processo de escravidão foi um crime de lesa humanidade, portanto quem participou desse processo cometeu um crime”, afirmou.

Diante de relatos pesquisados, o advogado também duvida da versão romantizada contada pelo Solar das Andorinhas. “Pode até ter havido um ‘senhor’ menos ruim, mas pelo que sabemos, os possuidores de escravizados que procuravam tratá-los de uma forma um pouco melhor recebiam repressão dos outros, porque desvirtuavam e desequilibram um processo, podendo dar prejuízo financeiro para os outros. Concordo com Luís Gama quando escreveu que, na sua opinião, se um escravo cometesse o assassinato do senhor ele o fazia por legítima defesa”, disse.

Racismo Hoje

Para Alessandra Ribeiro, entretanto, o racismo de hoje é tão latente que a discussão sobre os espaços de apologia à escravidão ainda não é prioridade do movimento negro. “Infelizmente o impacto que isso causa, considerando o conjunto de violações que sofremos, ainda é insignificante”, revelou.

Segundo Ademir José da Silva, as políticas afirmativas para os negros do Brasil ainda sofrem uma grande burla da sociedade. “Aqui na região tivemos a primeira lei de cotas em concursos públicos, em 2012, e diversas pessoas que não são afrodescendentes passaram. O extermínio da juventude preta, em especial do jovem negro masculino, é a maior perpetuação do crime da escravidão e a maior prova do processo vigente hoje”, afirmou.

O advogado ressaltou o caso do professor Paulo Palma, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que no dia 2 de junho deste ano publicou na página do reitor da Universidade, Marcelo Knobel, que a recém-aprovada lei de cotas raciais prejudicaria a instituição.

“Let’s Make Unicamp Great Again, em vez de corrigir o problema dão cotas para quem não tem condição de acompanhar. Não digo em cursos como dança, digo cursos que exigem um pouco mais de Q.I. Quando permite cota a Unicamp está trocando cérebro por nádega, por cor de pele”, comentou Palma. “Acho que isso responde o quanto Campinas ainda é racista”, concluiu Silva.

Segunda-feira, 10 de julho de 2017
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