O tempo da angústia
Sábado, 15 de julho de 2017

O tempo da angústia

Catadores de materiais do Pimp my Carroça fazem protesto contra execução de Ricardo. Foto: Guilherme Imbassahy | CUCA da UNE, retirada da página de Facebook dos Jornalistas Livres.

Ricardo Teixeira dos Santos tinha 39 anos quando recebeu o primeiro tiro no peito. Ainda vivo, agonizando, clamou por ajuda. Recebeu mais dois tiros enquanto já estava no chão. Antes mesmo de o atendimento médico chegar, seu corpo foi embrulhado num plástico escuro, colocado em uma viatura que partiu em velocidade sob protestos de quem acompanhava a cena.

Um amigo tentou socorrê-lo, mas teve quase todos os dedos quebrados por um policial. Um morador que filmou a cena teve contra si uma escopeta apontada para o peito. O policial retirou-lhe o celular e apagou todos os seus arquivos.

De Ricardo, pouco ou quase nada se sabe. Chegou há 15 anos no bairro de Pinheiros, em São Paulo, trabalhou como gerente de uma loja e atualmente ganhava 50 reais por dia recolhendo garrafas e materiais para reciclagem com uma carroça.

De patrimônio deve ter deixado, além da própria carroça, alguns panos e um cachorro que o acompanhava pelas ruas da maior cidade da América Latina. Trabalhava recolhendo os restos de uma sociedade cada vez mais assentada sobre os laços do consumo. Ricardo vivia de recolher o que consumimos e descartamos. Retrato perfeito de um tempo em que a vida mesmo se tornou objeto descartável, sem valor algum.

Ricardo foi morto por agentes do Estado. O motivo: um pedaço de madeira com o qual possivelmente encenava o drama da sua própria vida. Nunca representou qualquer perigo, muito menos na hora da sua morte. Foi vítima de uma política estatal de extermínio que, assim como as garrafas que recolhe, despreza e se desfaz da vida dos chamados indesejáveis do sistema capitalista. A vida se torna, então, uma garrafa pet pronta para ser lançada ao lixo ou esquecida por aí, como um objeto incômodo.  

Morava na mesma cidade de um prefeito que lança máquinas que destroem a parede de casas de pessoas pobres com elas dentro, obrigando-as a sair com a roupa do corpo entre escombros, como se a vida fosse um mero entulho.

O tempo da angústia.

Um dia antes da sua morte, o Senado Federal aprovou a “reforma trabalhista” ou aquilo que pode ser compreendido como o maior ataque aos direitos dos trabalhadores desde a existência da CLT.

Quatro dias antes de Ricardo ser assassinado o Brasil voltou a sair no mapa mundial da fome da Organização das Nações Unidas. Isso significa ao menos de 5% da sua população sem se alimentar o suficiente. Os cortes no orçamento para programas sociais, bem como o congelamento desses gastos por décadas, medidas realizadas pelo atual governo com amplo apoio dos grandes conglomerados de comunicação, fará com que a tragédia social no Brasil esteja apenas começando.

Entrar no mapa mundial da fome choca menos que o país ter o índice de investimento rebaixado por uma agência internacional de riscos. No capitalismo versão neoliberal, não há dúvidas entre o lucro ou a vida.

Vivemos tempos de angústia, mas eles podem e tornar-se-ão tempos de revolta. E é somente no tempo da revolta que será possível transformar e renascer.

No ferro velho em que trocava os materiais que recolhia, restou de Ricardo a carroça, os brinquedos que o acompanhava pelas ruas de São Paulo (um cachorro de pelúcia, um navio antigo de plástico e um teclado de criança). Ficou, também, para os amigos, a lembrança da páscoa. Aquela em que dividiu um ovo de chocolate da Kopenhagen que havia ganho na rua. Foi a última vez que pode celebrar o renascimento de Cristo.

Patrick Mariano é escritor. Junto a Marcelo Semer, Rubens Casara, Márcio Sotelo Felippe e Giane Ambrósio Álvares, assina a coluna ContraCorrentes, publicada todo sábado no Justificando.

Sábado, 15 de julho de 2017
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